domingo, 31 de janeiro de 2010

A CANDIDATURA DE MANUEL ALEGRE E A REVITALIZAÇÃO DO PS

Na sua habitual coluna de opinião no Público Vital Moreira volta – adoptando a grafia do Novo Acordo Orográfico – a Manuel Alegre e à sua candidatura presidencial. Fá-lo com a autoridade de alguém que não sendo do PS faz uma interpretação autêntica da sua linha político-ideológica e uma defesa da sua modernização social-democrata. Uma linha de desvitalização do PS enquanto partido de esquerda.

Não contesto a segurança do seu conhecimento dos pressupostos de acção política da actual direcção do PS, dada a proximidade que lhe tem sido facultada e as “missões” que, por esta, lhe têm sido confiados, enquanto eu, um simples e provinciano militante de base, confinado a uma Coimbra que tão pouco considerada é, não partilho esse conhecimento. Não posso, no entanto, deixar de rejeitar a ideia de que Manuel Alegre aprisionou o PS e que este se lhe vai ter de render, estando em causa, tão só, o momento e as condições de rendição.

 Mais ainda, acusar Manuel Alegre por dificuldades criadas ao Governo socialista na passada legislatura, que ainda estarão vivas, é uma afirmação arriscada, para não dizer outra coisa, dado que para muitos militantes e eleitores do PS Manuel Alegre com os seus alertas, chamadas de atenção e posterior participação na campanha eleitoral do PS garantiu, isso sim, que o PS não tivesse sido mais penalizado eleitoralmente.

Aliás, talvez se o PS – particularmente o seu Governo – tivesse ouvido mais cedo e melhor Manuel Alegre, em áreas e matérias cruciais, os resultados eleitorais fossem mais positivos do que aqueles que acabou por ter. Basta ver quanto foi positivo ter sido ouvido relativamente à Saúde e quanto foi negativo não lhe terem sido dado ouvidos na Educação. 

Não sei se a política de Educação seguida no anterior Governo socialista, e tão entusiasticamente defendida por Vital Moreira, correspondeu a uma moderna prática política social-democrata do PS e se os seus resultados políticos não terão sido uma das causas das dificuldades por que passou o Governo e que acabaram por se traduzir numa avaliação eleitoral negativa.

Quem terá, neste caso e só para citar um, causado verdadeiras dificuldades ao Governo anterior do PS.

Por outro lado, falar do óbvio “gaullismo” presidencial de Manuel Alegre é assumir uma “verdade” que não se vê onde se fundamenta sendo, portanto, um argumento de medo e não de razão que só contribui para enfraquecer as teses de Vital Moreira, assim como “assustar” com o argumento gasto dos comentadores de direita da dependência do BE também não colhe, sobretudo junto de quem não tem complexos de esquerda e continua a entender o PS como um partido de esquerda.

Vital Moreira assume, sem entusiasmo ou melhor contrafeito, que Manuel Alegre poderá surgir como candidato único à esquerda, não lhe augurando, contudo, grandes possibilidades de vitória. Já é um avanço e o reconhecimento do mérito político de Manuel Alegre, pela forma como avançou e quando avançou, deixando o maior partido português sem margem de manobra e conseguindo aquilo que Vital Moreira não conseguiu nas eleições europeias.

Coloca-se agora - coloca Vital Moreira -, a questão do eleitorado flutuante e as condições que Manuel Alegre terá para “entrar” nesse eleitorado. Bem nas últimas eleições presidenciais parece evidente que sendo Mário Soares o candidato do PS e tendo tido Manuel Alegre os resultados que teve o eleitorado flutuante não lhe ficou indiferente e é óbvio que com a ajuda de Vital Moreira, ainda que com alguma reserva e dificuldade, mas perante a irreversibilidade da única candidatura à esquerda, com condições de vitória, Manuel Alegre tem condições de ser o próximo Presidente da República.

Até para Vital Moreira seria, sem dúvida, uma “prenda” pelo que representaria de revitalização do PS, quando se comemora o Centenário da República. 

Nota: Artigo publicado em 31 de Janeiro de 2010, no Diário de Coimbra.

sábado, 30 de janeiro de 2010

DIÁLOGOS NA CÂMARA - VI


O presidente estava mal disposto. Tinha vindo rua fora sem reparar em ninguém. Nem se lembrava se tinha esboçado algum cumprimento. Para mais tinha uma reunião com o vereador das obras.

- Bom dia, senhor presidente - saudou o vereador, quando entrou no gabinete, feliz por, finalmente, ir falar de obras com o presidente.

- Bom dia - respondeu o presidente e, depois de um compasso de espera, confidenciou - Sabe, meu caro, hoje não estou bem disposto.

O vereador ficou preocupado. Nunca tinha visto o presidente com aquele ar nem ouvido semelhante desabafo e, por isso, um pouco a medo, perguntou - Alguma coisa que comeu ao jantar. A chanfana é muito pesada para a noite.

- Não, não é nada disso. Estou bem, só que esta noite tive um sonho preocupante... Não sei se conhece a história do filósofo e do caracol - acrescentou o presidente e começou, sem esperar pela resposta: "Um dia um filósofo passeava, com os seus discípulos  junto a um rio, quando se apercebeu que entardecia e se aproximava uma tempestade, pelo que começou a andar rapidamente. Um dos discípulos, sem perceber o que se passava e vendo um caracol que caminhava tão calma e lentamente, dirigiu-se ao mestre e disse-lhe: Mestre, por que vamos tão depressa. Vê-de aquele caracol como caminha serenamente, ele é que parece um filósofo. Ao que o filósofo respondeu, sem parar: Aquele caracol não procura, como nós, respostas para o futuro nem protecção para o presente. Caminha apenas. Come a verdura que outros semearam e põe ovos para continuar a sua espécie. Podes fazer como o caracol ou caminhar depressa como homem de acção que também sabe reflectir. A escolha é tua."


Depois de alguns segundos de silêncio, que pareceram horas, o vereador atreveu-se a dizer - Mas, senhor presidente, parece-me um história banal e não percebo o que o perturbou tanto.

- Pois é, meu caro, a história não tem nada de especial o que me preocupa é que eu sonhei que era o caracol - respondeu o presidente.  Como vê hoje não é bom dia para tratarmos de obras - acrescentou - é melhor deixar-mos para outro dia. Eu depois mando chamá-lo. Veja se quer um café...

O vereador das obras retirou-se pensativo, a tentar interpretar o sonho.

Nota: Qualquer semelhança com a realidade é pura coincidência

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

POESIA COM SOTAQUE

Jô Soares está no teatro Villaret, em Lisboa, a partir de hoje, com o  espectáculo  "Remix em Pessoa" em que apresenta - com sotaque português -, textos de Fernando Pessoa acompanhados de uma selecção musical que vai de Bach ao hip hop, passando pelo jazz, valsas, etc.

Na impossibilidade de estar presente decidi revisitar Pessoa, dito por João Vilarett.

 
 
E, já agora, porque não ouvir Villaret dizer - com sotaque Brasileiro - "Essa Néga Flô", de Jorge de Lima, ou "Quadrilha", de Carlos Drumond de Andrade.

ANIMAR A BAIXA COM ARCIMBOLDO

 Na leitura de "2666" de Roberto Bolaño o nome da misteriosa personagem Archimboldi fez-me lembrar o pintor italiano, do século XVI, Arcimboldo (Giuseppi) e a sua pintura muito especial.

Associação atrás de associação imaginei - na perspectiva de que a "salvação" da Baixa de Coimbra passa entre outras medidas por uma intervenção cultural que rompa os estigmas a que tem sido condenada -, que seria interessante promover uma exposição de reproduções das obras de Arcimboldo nas pequenas lojas de venda de frutas  e legumes.

A Baixa precisa de iniciativas invulgares, capazes de atrair gente e de a animar.

As pinturas de Arcimboldo também poderiam servir como modelo de máscaras e levarem à realização de performances, por alguns dos grupos de teatro da cidade.

Obviamente que o Mercado D. Pedro V também seria envolvido nesta iniciativa. 

Continuo a acreditar que a Baixa de Coimbra tem futuro e que é indispensável à cidade. Precisa, contudo, de atenção e criatividade.

O clik necessário estará na cultura, associada à indispensável renovação urbana e a um apoio consequente dos seus comerciantes.

LEITURA POLÍTICA


No momento em que se inicia mais uma disputa no PS Coimbra, a nível concelhio, parece-me útil recomendar um livro "Maquiavel em Democracia" que pode constituir uma interessante leitura para os candidatos.

Trata-se de um livro escrito por um político de direita - François Balladur -, que foi primeiro-mininistro da França, em coabitação com o presidente François Mitterrand e candidato à presidência da França.

Edouard Balladur procura caracterizar a forma de exercício da política como ela é entendida, hoje, e não é pelo facto de ser um político de direita que deve inibir a sua leitura. 

Acreditem que se aprende. A frase que abre o livro, no seu preâmbulo, é de Chauteaubriand e diz: "A ambição de quem não tem capacidade é um crime."

A ARTE DA PRUDÊNCIA - 21



A arte da sorte.



A boa sorte tem as suas regras; nem tudo são casualidades para o sábio; o esforço pode ajudar a boa sorte. Alguns contentam-se com colocar-se confiadamente às portas da Fortuna esperando que ela faça algo. Outros, com melhor tino, entram por essas portas e utilizam uma audácia razoável que, conjuntamente com a sua virtude e coragem, pode atingir a boa sorte e obter os seus benefícios. Mas, pensando bem, não há outro caminho se não o da virutde e da prudência, porque não há boa ou má sorte, apenas prudência e imprudência.

A Arte da Prudência
Baltasar Gracián

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

DIA EUROPEU DA PROTECÇÃO DE DADOS





Comemora-se hoje o Dia Europeu da Protecção de Dados e a dúvida está em saber se ainda há alguma coisa a proteger. 

Não parece. De forma consciente ou inconsciente fomos, com a banalização do uso das novas tecnologias e induzidos das mais diversas formas, disponibilizando informação pessoal que permite que muitos disponham da nossa "radiografia" de corpo inteiro.

Dizer que ainda há dados que podemos proteger penso ser uma mistificação. 

A minha reacção de oposição à videovigilância na nossa Coimbra - ainda que a compreenda como solução de desespero - é uma reacção a essa privacidade perdida no espaço público e tenho pena que muitos dos cidadãos  que apoiaram e apoiam essa medida não tenham a plena percepção do que estava e está em causa.

Mais, esta é também uma questão política e lamento, profundamente, a sua aceitação pacífica pela generalidade dos partidos políticos com responsabilidades autárquicas.
 
Há coisas irreversíveis e hoje é à noite, amanhã todo o dia, para sempre.

Aliás, como é que podemos aceder às nossas imagens captadas pelas câmaras no espaço público?

SUGESTÃO MUSICAL - CHAVELA VARGAS


 Num tempo depressivo e de crise nada melhor do que a música para dar sustento à alma mesmo que, contraditoriamente, se traga uma cantora que se distingue pelo seu modo de cantar intenso mas choroso.

Aprecio particularmente Chavela Vargas, uma cantora "mexicana" que nasceu na Costa Rica, em 1919, e cujo verdadeiro nome é Isabel Vargas Lizano.

Foi amiga de Frida Kahlo e a sua voz ouve-se em filmes de Almodóvar

A sua La Llorona é soberba mas todas as suas interpretações, com uma voz única, merece os nossos ouvidos.

A IMPORTÂNCIA DA VOZ DO DINHEIRO



A comunicação social vem fazendo abundantes referências a uma entrevista de Belmiro de Azevedo à revista Visão. O interesse da generalidade dos media - que cita e transcreve algumas das suas declarações tem sobretudo a ver com as acusações que faz aos políticos. É um processo de marketing, recorrente do entrevistado e de publicidade para as suas empresas, com custos nulos.

Contudo, a verdadeira questão não está no que o engenheiro Belmiro de Azevedo diz. Está no relevo que lhe é dado só porque é alguém com dinheiro e poder económico. É uma voz do dinheiro, em todo o seu esplendor.

A importância mediática da entrevista é um verdadeiro barómetro do peso do poder económico e da sua convicção de superioridade sobre o poder político.  

Estamos em crise mas os negócios vão bem. Os negócios que alguns dos políticos que o engenheiro Belmiro de Azevedo põe de rastos terão facilitado.

Resta a nota de "ternura" pelo despedimento político - ocorrido em tempos - de alguns ministros que eram não só os melhores mas também seus amigos, sublinhe-se.

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

ECONOMIA E POLÍTICA EM GRANDE

As questões económicas vão estar hoje particularmente em foco. É a discussão sobre o nosso Orçamento do Estado, é o começo da reunião de Davos, na Suíça, e o discurso do estado da União que o presidente Obama vai pronunciar.

Sobre o nosso Orçamento, para além da descodificação técnica e as implicações práticas foi dado o tiro de partida e muito iremos ouvir falar por estes dias, esquecendo que este é um documento que tem muito de previsional e que só perceberemos, com um mínimo de segurança se ele é uma verdadeira e correcta resposta à crise que enfrentamos quando chegarmos a Setembro e virmos os resultados dos primeiros três trimestres do ano.

É claro que no campo político ele reflecte opções que merecem ser devidamente analisadas e contextualizadas de modo a perceber-se que caminho(s) se pretendem percorrer e em que sentido. Há aqui um misto de expressão ideológica e de realismo que deve ser considerado e, para além de termos orçamento, é necessário entender que orçamento.

Quanto a Davos o que parece ser mais interessante é o reforço da presença dos banqueiros que o ano passado, no auge da crise, estiveram quase ausentes. Hoje a sua preocupação, depois dos imensos recursos que transitaram da economia real para a banca é vê-los de novo aparecer para defender os inconvenientes de uma maior regulação que aparece como uma resposta política - ténue - de alguns governos. Aliás a preocupação parece ser a de tentar evitar que a Europa adopte alguma da dureza de que Obama tem dado mostras, nesta matéria, nos últimos dias. Diz-se que em Davos a sua agenda implica a defesa de uma santíssima trindade: inovação, globalização, desregulação.

Finalmente o discurso do estado da União do presidente Obama que está a suscitar muita expectativa e que se diz vai ser particularmente dirigido àquela que classificam, na América, como a "geração sanduíche", isto é, a actual classe média que tem de pagar os estudos dos filhos e a reforma do país. Mas o discurso de Obama também nos é dirigido porque muitas daquelas que vão ser as suas opções económicas vão ter reflexos concretos na nas nossas vidas dado que estão em causa opções estruturantes da principal economia mundial.

Temos, por isso, muito para reflectir hoje - em grande - sobre economia e política. 

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

DIÁLOGOS NA CÂMARA – V

A vereadora estava confusa e não sabia como abordar o problema, mas…, respirou fundo e dirigiu-se ao gabinete do presidente.

- Então senhora vereadora – atirou o presidente – continuamos com problemas com os motoristas. Dizem que eu lhes prometi coisas. Não me lembro de nada. Eu sei que não é nada consigo, mas tenho de desabafar com alguém e a senhora melhor do que ninguém sabe destas coisas do pessoal. São os chatos. Em campanha há sempre uns que dizem que nos apoiam e a quem a gente não pode dizer que não, depois, em vez de se esquecerem, como eu faço, lá vêm com aquelas lembranças…

- Pois é, senhor presidente, as questões do pessoal são muito melindrosas e quase sempre são os “nossos” que mais problemas nos levantam. Julgamos que está tudo bem e de repente resolvem inventar umas coisas para complicar. Por falar nisso eu…

- Não me venha com problemas hoje, atalhou o presidente, isto tem andado sossegado nos jornais. Só há crimes onde não há câmaras instaladas e agora vai haver umas eleições na oposição o que os vai entreter uns tempos. Devíamos aproveitar para umas férias.

- Mas, senhor presidente, vai-me desculpar mas tenho de o incomodar com uma questão. É uma questão nova, que não sei como resolver.

- Diga lá então – suspirou o presidente.

- Bem, acabei de receber um pedido. É um pedido especial e eu não sei bem como decidir. Veja, recebi este requerimento de um jornalista a pedir para poder trabalhar embedded na Polícia Municipal. Ora eu fui ao dicionário e fiquei a saber que embedded queria dizer “na cama com” o que me deixou confusa. Nunca tal… um pedido desta natureza…

- Dum jornalista… bem isso é suspeito, muito suspeito… Peça aí para me ligarem ao vice-presidente.

Feita a ligação o vice-presidente foi confrontado com o pedido de ajuda e análise da pretensão e, com a sua simpatia titubeante, começou por responder – O senhor presidente não está a brincar comigo!? É que na guerra do Iraque é que os americanos usaram essa técnica de “introduzir” os jornalistas nas unidades militares operacionais para presenciarem os acontecimentos e darem as notícias.

- Obrigado. Então está explicado, senhora vereadora, temos aí alguém que quer introduzir-se na Polícia Municipal para assistir às operações de combate – disse, com olhar presidencial, o presidente.

- Mas, senhor presidente, isso é inaceitável. Vou já dizer que não, até porque com tantos processos nem há espaço para mais camas. Olha que ideia – exclamou irada a vereadora.

- Calma, minha cara, as coisas não podem ser assim tratadas, estamos a falar de jornalistas – disse pausadamente o presidente e acrescentou – Vamos responder, dizendo que teríamos muito gosto na presença do senhor jornalista a dormir na camarata dos agentes mas não temos espaço para mais camas e que para resolver o problema eu darei uma conferência de imprensa semanal sobre a Polícia Municipal.

- Mas, senhor presidente, acha que chega uma conferência de imprensa semanal – interrogou a vereadora.

O presidente disse um contido – Continuação de um bom dia – e recomeçou a ler o jornal.

Nota: Qualquer semelhança com a realidade é pura coincidência.

A ARTE DA PRUDÊNCIA - 20


Ser um homem do seu tempo.

Os homens de rara eminência dependem da época em que vivem. Nem todos tiveram a que mereciam e muitos dos que a tiveram não chegaram a desfrutá-la. Alguns eram dignos de melhor época, pois nem sempre o bom triunfa. As coisas têm o seu tempo, e até as eminências dependem do gosto da época. Mas a sabedoria leva vantagem: é eterna, e se este não é o seu tempo muitos outros o serão.


A Arte da Prudência
Baltasar Gracián


 

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

AVALIAÇÃO

Passado mais de um mês sobre o momento em que comecei este blogue interrogo-me sobre a sua pertinência.

Sendo a sua forma e o seu conteúdo única e exclusivamente da minha responsabilidade seria, para mim, extremamente interessante e enriquecedor conhecer a opinião de todos aqueles que, por alguma razão, por aqui passaram ou que aqui chegam e por isso o meu pedido de críticas, comentários e sugestões.

Havendo uma exposição pública nada melhor do que conhecer a voz pública.

A todos os que queiram ter esse trabalho o meu obrigado.

Avaliar os meus actos é um saudável exercício que sempre perfilhei.

COIMBRA E A SÍNDROME DE BROWN-SÉQUARD

A política nacional é alvo de análise e de comentários permanentes, a todos os níveis. Não há quem não elabore cenários e fale ou escreva, com grande segurança e convicção, sobre políticas que de uma penada salvarão para sempre o país, e quem não conheça todas as incompetências e sinistros objectivos dos políticos nacionais.

Contrariamente, a política local é muito menos inspiradora e motivadora o que coloca o interessante problema de ver que a proximidade com os actores políticos é inibidora da crítica e/ou do comentário e que as políticas, que de forma determinante condicionam o quotidiano, tomadas pelo governo local, são muito menos questionadas, comentadas e criticadas.

É recorrente o xiste ou a acusação violenta a um qualquer primeiro-ministro, ministro ou dirigente político nacional enquanto se nota um "respeitinho", por vezes suspeito, perante a nítida incompetência de um político local. Há como que uma escala em que a violência da critica ou da acusação é inversamente proporcional à "localização" territorial do político.

A proximidade, que dá o conhecimento concreto e exacto da acção política é, surpreendentemente, castradora de uma expressão útil a uma democracia mais participativa. Por que será?

Aliás, também se nota a atribuição de uma hierarquia de inteligência política e de relevância mediática em função dos alvos da escrita ou do comentário. Quem escreve sobre a vida local é um "bárbaro" e provinciano, incapaz do alto pensamento sobre a salvação da pátria. Quem se pronuncia, mesmo que replicando ideias de outros, sobre a política nacional é alguém de estatuto firme e superior.

E, no caso do conteúdo da análise passa-se o mesmo. Veja-se a facilidade com que se fala do Orçamento do Estado e das críticas e comentários que se fazem sem tão pouco ser conhecido, e da ausência de análise e comentário sobre os orçamentos municipais ou das freguesias que vão formatar de forma determinante o desenvolvimento local.

Uma das criticas que alguns amigos me fazem, ainda que amavelmente, é a de me preocupar excessivamente com a política local e de ser muito crítico da política da Câmara e particularmente do seu presidente. Para alguns sou mesmo demasiado assertivo e excessivo. Devo confessar que são mais os que me fazem esta critica do que aqueles que contestam as minhas criticas. O que não é mau, devo dizê-lo.

Uma coisa é certa, ser excessivo em nome de ideias e na defesa dos interesses da minha cidade, não me traz qualquer desconforto, o que não sei se acontecerá àqueles que se calam por medo ou compromissos invisíveis.

Parece que Coimbra sofre de uma espécie de doença política, que clinicamente - e peço desculpas aos profissionais de saúde por me meter por estes caminhos - é equivalente à síndrome de Brown-Séquard que é uma síndrome neurológica devida a lesão da parte direita ou esquerda da espinal medula, caracterizada por paralisia e perda de sensibilidade articular e muscular do lado da lesão e, por perda da sensibilidade da pele à temperatura e à dor do lado oposto à lesão.

Será que não é assim?

A RTE DA PRUDÊNCIA - 19

Não começar nada com demasiadas expectativas.

É um engano frequente ver que tudo o que recebe muitos elogios antes de iniciado não atinge depois a altura esperada. O real nunca consegue igualar o imaginado, porque imaginar as perfeições é fácil, mas é muito mais difícil consegui-las. A imaginação casa-se com o desejo, idealizando muito para além do que as coisas são. Por grandes que sejam as excelências, não chegam para satisfazer o idealizado. Ao imaginar as excelências com uma expectativa exorbitante, decepcionam mais do que entusiasmam. A esperança é uma grande falsificadora da verdade. A cordura deve refreá-la, procurando que o desfrute do real supere o desejado do imaginário. Os começos honrados servem para despertar a curiosidade, e não para comprometer o propósito final. É melhor quando a realidade supera a ideia prévia e é mais do que se imaginou. Esta regra não se aplica àquilo que é mau, pois o próprio exagero o ajuda: a realidade desmente com aplauso a imaginação, chegando a parecer tolerável o que a príncipio se temeu por muito ruim.

A Arte da Prudência
Baltasar Gracián

sábado, 23 de janeiro de 2010

SUGESTÃO PARA O FIM DE SEMANA


Enquanto podemos assistir a alguns interessantes jogos do Campeonato Africano das Nações em Futebol - CAN 2010 Angola - e perceber a importância que este evento desportivo representou para o desenvolvimento das mais diversas infraestruturas em Angola - fica a sugestão de ouvir a fantástica música de dois malianos: Ali Farka Touré e Toumani Diabaté e, por exemplo, o seu CD "In  the Heart of the Moon".

O primeiro, já falecido, era um exímio guitarrista e cantor e o segunda toca Kora, uma espécie de harpa com 21 cordas, de que tem sido o grande divulgador a nível mundial.

É um bom momento de encontro com África e com toda a sua diversidade e contradições.

Para acompanhar os desenvolvimentos da política nacional sugiro Johnny Cash e começar por ouvir I walk the line.


sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

A ARTE DA PRUDÊNCIA - 18


Aplicação e capacidade.

Não há eminência sem ambas, e se convergem, a eminência é ainda maior. É melhor conseguir uma mediania com aplicação do que uma superioridade sem ela. A reputação compra-se com trabalho: pouco vale o que pouco custa. Para alguns, mesmo nos mais altos cargos, é desejável a aplicação. Poucas vezes é independente do carácter. É compreensível não sobressair numa ocupação inferior, por querer ser medíocre num emprego melhor. Mas não há desculpa para quem se ontenta com ser mediano numa ocupação humilde pudendo ser excelente na mais elevada. É necessário, pois, natureza e arte, juntamente com aplicação.

A Arte da Prudência
Baltasar Gracián 

 

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

A ÁGUA EM QUE PILATOS LAVA AS MÃOS

Assinalando um mês sobre a instalação do sistema de videovigilância os jornais locais davam conta, no passado Sábado, de que a Baixa de Coimbra se sentia mais tranquila.

Ontem, Terça-feira, uma ourivesaria na Baixa foi assaltada depois de uma tentativa a uma outra.

Ontem Terça-feira dei, como faço muitas vezes, uma volta pela Baixa, antes da hora do assalto, e devo confessar que para além de não ter encontrado um único polícia (PSP ou Municipal) - mera casualidade decerto - me deparei com o "retorno" de um ou dois (talvez uma equipa de dois) "vendedores espontâneos" de roupa na rua da Sofia "instalados" no passeio, em frente de uma loja de vestuário.

Não senti insegurança mas abandono e uma Baixa mais vazia e sem atractividade.

A Baixa vai morrendo por descuido e por ausência de uma visão política que entenda a sua importância para a cidade.

A videovigilância, como o tempo irá demonstrar, não resolve nada, não é esse o investimento de que a Baixa precisa.

A videovigilância não é mais do que a água em que Pilatos lava as mãos.

CONTRIBUTO PARA UM DIAGNÓSTICO

Não é um contributo para a ciência médica mas ajuda a explicar alguns comportamentos e estados de espírito que por aí se vêm:

"As dores do espírito apareceram com toda a sua força e malignidade na Idade do Ferro e disseminaram pelo mundo, em consequência da sua corrupção, as diversas doenças que Vêm afligindo os homens ao longo de tantos séculos. A ambição produziu as febres agudas e frenéticas; a inveja produziu a icterícia e a insónia; é da preguiça que provêm as letargias, as paralisias e os langores; a cólera fez as asfixias, as ebulições do sangue e as inflamações do peito; o medo fez as palpitações cardíacas e as síncopes; a vaidade fez as manias; a avareza, a tinha e a sarna; a tristeza fez o escorbuto; a crueldade fez o cálculo renal; a calúnia e os falsos testemunhos disseminaram o sarampo, as bexigas e a escarlatina, e devemos ao ciúme a gangrena, a peste e a raiva. As desgraças imprevistas fizeram a apoplexia; os pleitos fizeram a enxaqueca e os transportes do cérebro; as dívidas fizeram as dores éticas; o tédio do casamento causou a febre quarentã e a lassidão dos amantes que não ousam separar-se causou os vapores"


La Rochefoucould, Máximas

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

UMA OPORTUNIDADE HISTÓRICA PARA RENOVAR A CIDADE

O avanço do Projecto Metro Mondego suscita-me várias reacções. 

A primeira e principal é de satisfação por ver o projecto avançar. A segunda de tristeza por neste momento não ser já uma realidade. A terceira de alguma revolta por ver protagonistas que no passado tanto o atacaram e tudo fizeram para o boicotar o assumirem, agora, como seu.

Mas como dizia alguém: É da vida.

Quem teve a visão e a ousadia - em Coimbra pode-se dizer assim -  para inscrever o Projecto de Metropolitano Ligeiro no futuro da cidade não pode deixar de estar satisfeito, ainda que não esqueça os ataques políticos e as alternativas mirabolantes de túneis e que tais, que só serviam para confundir e travar o processo.


Neste momento, importante é o seu urgente desenvolvimento e o aproveitamento, a todos os níveis, das potencialidades que um projecto como este traz a Coimbra. É que não está em causa apenas um meio de transporte mas uma possibilidade histórica de reformatar as acessibilidades e a mobilidade induzindo, simultaneamente, modernização urbana em áreas criticas da cidade.

Conhecendo, no entanto, a actual gestão autárquica é inevitável a preocupação pela falta de visão e de estratégia da Câmara e os consequentes estrangulamentos que essa incapacidade pode representar para o projecto.

Basta olhar para o que se passa em toda a envolvente dos HUC e para as consequências da  entrada  em funcionamento do Novo Pediátrico, faça à ausência de uma rede de acessibilidades devidamente estruturada, para perceber como um projecto, que é uma enorme oportunidade, pode vir a sofrer  constrangimentos e contraproducentes disfuncionalidades.

Há alguém, com particulares responsabilidades, que passa a vida a dizer que há coisas que já deviam ter sido feitas há trinta anos mas que infelizmente não consegue ver nem planear a um ano de distância.

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

A ESCOLHA POSSÍVEL OU A ESCOLHA NECESSÁRIA

O arranque da campanha para as eleições presidenciais do próximo ano foi sinalizado pela mensagem de Ano Novo de Cavaco Silva e a consequente agenda política, tendo merecido resposta de Manuel Alegre que se apresentou, desde já,  como candidato à esquerda. 

A candidatura de Manuel Alegre, ainda que previsível, tem o mérito, ao apresentar-se neste momento, de iniciar atempadamente um processo de clarificação, de estabilização e conforto do eleitorado de esquerda, para além de demonstrar que há da sua parte uma óbvia capacidade de resposta política, no  tempo adequado.

Por estes dias, não é apenas uma leitura estética e uma intervenção poética mas a escolha da partitura política que deve reconhecer-se a Manuel Alegre.

Por outro lado, há uma demonstração de coragem ao não ter medo de se bater pelo poder em nome de um projecto para o país onde se inscrevem valores e uma visão cultural que não se confina à cartilha mínima.

O interessante é que isto acontece no preciso momento em que Cavaco Silva, através do seu presidentezinho/conselheiro, se volta a envolver na politiquice e a renovar Belém como centro de uma condenável intriga político-partidária e mediática.

Após a aprovação do Orçamento é tempo de todas as clarificações e os partidos não terão alternativa a uma decisão sobre as presidenciais. Nesse momento, aqueles que agora ainda entendem, no meio dos argumentos mais elaborados, que Manuel Alegre é apenas uma escolha possível vão perceber que, mais do que isso, Manuel Alegre é a escolha necessária.

ARTE DA PRUDÊNCIA - 17

Variar de estilo ao agir.

Não actuar sempre da mesma forma. Assim se confundem os outros, especialmente se são adversários. Não se deve agir sempre com primeira intenção, pois ficaremos prisioneiros da rotina e antecipar-nos-ão e frustrarão as acções. É mais fácil matar a ave que tem um voo uniforme que aquela que muda a sua trajectória. Também não se deve agir sempre com segunda intenção, pois aperceber-se-ão do estratagema quando este se repita. A malícia espreita a ocasião e é necessária uma grande subtileza para a despistar. O jogador nunca move a peça que o adversário espera, e menos ainda a que deseja.

A Arte da Prudência
Baltasar Gracián

DIÁLOGOS NA CÂMARA - IV

O presidente agarrou no telefone e disse à secretária - Diga à senhora vereadora para vir ao meu gabinete.

Qual das vereadoras, senhor presidente? - perguntou a secretária.

- Ah! A vereadora dos polícias - respondeu o presidente, num tom confuso.

Chegada a vereadora, depois de ter aguardado algum tempo e dos habituais beijos de cumprimentos, o presidente dirigiu-se à janela, espreitou e começou  - Estou muito preocupado com a situação da Polícia. É verdade que quando venho de casa pela Ferreira Borges e pela Visconde da Luz não encontro engarrafamentos nem estacionamentos em segunda fila, aliás cada vez encontro menos gente, mas leio e oiço tantas criticas que... As coisas não vão bem. Vai ter de agarrar no problema.

- Também tenho andado muito preocupada, senhor presidente, - começou a vereadora - e agora que parecia que tudo estava bem encaminhado volta a haver problemas com o concurso para comandante.

- Pois é, incompetência vossa -  atalhou o presidente.

- Senhor presidente, minha não, é um processo que já vinha de trás e que tem a ver com o júri do concurso - respondeu a vereadora.

- Senhora vereadora, não queira fugir já às responsabilidades, olhe que por essas e por outras é que já por aqui passou uma jovem vereadora a quem tive de retirar funções, por deslealdade. Portanto, exijo-lhe solidariedade e se o júri fez asneira é porque foi incompetente. Eu só lhes disse quem queria e eles é que não souberam fazer convenientemente as coisas, mas adiante...- disse o presidente de sobrolho carregado, e continuou - Um dia destes vou visitar o quartel e passar revista aos agentes e queria que me apresentasse um plano de formação do pessoal.

- Com certeza, senhor presidente - respondeu a vereadora, um pouco confusa e angustiada, e acrescentou - Haverá alguma matéria que gostasse de ver tratada de forma especial.

- Olhe, minha cara, eu aprecio muito os filmes da série "Academia de Polícia" e acho que são um bom exemplo para a nossa Polícia - esclareceu firme o presidente. Mas - acrescentou - investigue, também, se não haverá por lá algum agente infiltrado. Há dias vi aquele filme "Entre inimigos" e fiquei a pensar se não haverá por ali coisa parecida.

- Mas, senhor presidente, as coisas não têm comparação - disse, de forma mais descontraída, a vereadora.

- Lá está a senhora a facilitar. Veja com atenção e, mais uma coisa, não se esqueça, eu quero ver o canhão.

A vereadora, que já se tinha levantado e preparava para despedir, ficou paralisada, e passado alguns eternos segundos atreveu-se: - O canhão!?

- Sim, o canhão. Nós comprámos um canhão para a inauguração do Estádio Sérgio Conceição. Espero que esteja operacional e que saibam manobrá-lo convenientemente. Não se esqueça.

A vereadora dirigiu-se para a porta e de tão confusa até se esqueceu de despedir do presidente.

Nota: Qualquer semelhança com a realidade é pura coincidência.

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

NEM O NOME DO ESTÁDIO É CAPAZ DE MANTER

Há certas matérias sobre as quais é particularmente chocante - é difícil outro termo - ouvir ou ler declarações do presidente da Câmara de Coimbra. Uma delas tem a ver com as obras de renovação do Estádio Municipal,realizadas por altura do EURO 2004.

Em primeiro lugar nunca se ouviu do Dr. Carlos Encarnação, que era Deputado por Coimbra, qualquer discordância com o processo de candidatura de Coimbra na participação do EURO e consequentemente com as obras de renovação do Estádio, que à época não tinha as mínimas condições de segurança e de conforto.

Quando tomou posse, em 2002, as obras ainda não tinham começado, estavam apenas adjudicadas e por isso se o Dr. Carlos Encarnação fosse um político de convicções e de coragem poderia ter denunciado o contrato e "salvo" a Câmara dos encargos de que passa a vida a lamentar-se. Não o fez. Foi politicamente cobarde e portanto não tem autoridade para falar.

Mas, não tendo tomado a decisão que em consciência, se é que verdadeiramente tinha consciência dos problemas, devia ter tomado, resolveu construir mais um estádio em Taveiro, que baptizou com o nome de Sérgio Conceição, por força de um qualquer "negócio" que nunca se percebeu, e que custou à Câmara, exclusivamente à Câmara, perto de 1 milhão de contos.

Esta verba que podia ter sido investida no Estádio Universitário foi canalizada para um novo Estádio, feito sem enquadramento urbanístico, em terrenos privados, e com compromissos prévios susceptíveis de não se poderem realizar.

Para a inauguração deste Estádio gastou milhares numa festança que contou com a presença do ministro Marques Mendes.

Depois, concluídas as obras no Estádio Municipal, que baptizou Estádio Cidade de Coimbra, fez três cerimónias de inauguração em que gastou mais uns milhares de euros.

Seguidamente, com o argumento de que era preciso salvar as finanças da Câmara fez um contrato com o grupo Amorim - o EuroStadium - que levou á construção de um shopping no centro da cidade, com a Câmara a pagar diversas infraestruturas e a permitir a construção de mais de 200 apartamentos privados em terrenos municipais.

Continuando o processo, foi renegociando um empréstimo feito para pagamento de parte das obras que vai agora começar a ter implicações gravosas nas finanças da Câmara. Portanto o EuroStadium não salvou nada, antes pelo contrário.

Depois resolveu avançar com um processo de cedência do Estádio à Académica, que é um imbróglio e que mais tarde ou mais cedo vai dar sérios problemas.

Finalmente o presidente da Académica, que até era director municipal, resolveu mudar o nome ao estádio tendo passado a designá-lo por Estádio Finibanco. O Dr. Carlos Encarnação afirmou que isso era impossível.

Hoje lemos a publicidade aos jogos da Académica e o que sabemos é que eles têm lugar no Estádio Finibanco.

É portanto chocante ouvir o Dr. Carlos Encarnação a falar dos problemas com as obras do Estádio.

Alguém que não queria a modernização do Estádio, nem a participação de Coimbra no EURO 2004, andou a gastar milhões sem nexo e agora até nem o nome do Estádio é capaz de manter e ainda tem o desplante de atirar sistematicamente culpas para as costas de outros.

É demais!

Haja um mínimo de decoro.

A ARTE DA PRUDÊNCIA - 16


O saber com boa intenção garante a abundância de acertos.

Um bom intelecto casado com uma vontade malévola sempre foi uma violação monstruosa. A intenção malévola é um veneno para a virtude e, aliada ao saber, prejudica com maior subtileza. Desafortunada eminência a que se dedica à ruindade! É uma ciência sem sensatez, uma dupla loucura.

Arte da Prudência
Baltasar Gracián

UM CASO DE POLÍCIA

Não é por acaso o que tem vindo a acontecer na Polícia Municipal. É o resultado do modelo de gestão autárquica que sem sendo protagonizado pelo actual presidente da Câmara e iniciado em 2002.

Os sucessivos problemas internos, os processos de inquérito e a forma como foram sendo conduzidos, e, sobretudo, a dança dos Comandantes, reflectem exemplarmente em foi transformada a Câmara de Coimbra.

Ali, onde há um quadro de pessoal feito à medida duma determinada clientela política, com os subsequentes processos de selecção “dirigidos” de modo tão “objectivo”, é evidente que os resultados, por muito que se tente esconder, vão aparecendo.

A destruição do nervo ético e até moral, levada a cabo desde os primórdios de 2002, por responsabilidade do actual presidente, são uma das razões fundamentais para um “sub-mundo” relacional e funcional, que se presta a todas estas “confusões”.

Numa Câmara em que foi possível assistir ao florescer de tantos e tantos casos, chegando-se a desconfianças de corrupção, sem uma intervenção determinada e rápida do seu principal responsável e em que se ouviram graves acusações do ex-vice-presidente ao carácter do presidente sem resposta deste, não é possível deixar de encontrar problemas e múltiplos abcessos.

Quando falta o exemplo, ou, melhor, quando o exemplo é o que se conhece, há uma óbvia propensão de alguns daqueles quem estão abaixo de reproduzirem os exemplos que vêm de cima e não merece a pena tentar transformar a Câmara num bunker, porque as brechas vão aparecendo e, por vezes, ainda com maior intensidade.

Não espanta, por isso, olhar para agentes(?) da Polícia Municipal que se adivinha perdidos, sem perceberem o seu papel e o seu trabalho, sem capacidade de expressão de uma autoridade que devia ser natural e que a sua função devia implicar. Nalguns casos notam-se displicentes, mal fardados, inconsequentes na sua acção. Não se lhes percebe a dignidade do exercício do serviço público em que estão investidos.

É que eles não sentem, por mais diligentes e empenhados profissionalmente que sejam, que estão a exercer actos de autoridade cidadã, quando o responsável máximo da instituição de que dependem não tem mais do que uma autoridade política formal (foi democraticamente eleito) faltando-lhe a autoridade que decorre da ética, de princípios e de valores e duma prática consentânea com esses valores.

Mais do que uma solução e ajuda para a resolução de alguns dos problemas da cidade a Polícia Municipal, para além dos elevados custos financeiros que representa, foi transformada, ela própria, em mais um problema. A ineficácia da sua acção, naquilo que foi o objectivo central da sua criação, é patente. Os custos de imagem para a autarquia e para a cidade vão levar muito tempo a ser ultrapassados.

Pergunte-se aos cidadãos qual é a imagem que têm da Polícia Municipal de Coimbra e veja-se a resposta.
Agora haverá mais um caso com o concurso de recrutamento de um novo comandante e, seja qual for o resultado, é mais do que evidente que ficará uma nova ferida naquela que devia ser uma unidade operacional do Município, sem mácula.

Parece que será necessário chamar a polícia para deslindar tudo o que se tem passado na Polícia Municipal. Este é um daqueles dossiers a que se pode chamar, com propriedade, um verdadeiro caso de polícia.

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

VICTOR BAPTISTA E A REGIONALIZAÇÃO

Victor Baptista anunciou-nos que está contra a Regionalização.

Segundo diz  é muito cara e o país atravessa um período de grandes dificuldades financeiras.

É notório que Victor Baptista vive um período político particularmente difícil. A explicação para as suas últimas intervenções, tentando demarcar-se das opções do secretário-geral do PS e de alguma forma afrontá-lo, são sintoma de um grande desconforto. 

A explicação terá de ser encontrada na  irrelevância partidária, a que está  reduzido, a nível nacional. E depois aquela de ver José Junqueiro como Secretário de Estado ultrapassou a sua capacidade de encaixe.

O drama é que por aqui vamos todos perdendo com estas tiradas...   

O AMOR


Ler Borins Vian é sempre um prazer, é uma lufada de ar fresco. Merece a pena.

"É possível imaginar empresas de publicidade que tentassem, por exemplo, devolver aos homens o gosto pelo amor natural, o do macho pela fêmea. Concebo sem dificuldade anúncios deste género: "Fazer amor com uma mulher loura é bom... mas será que já experimentou as morenas?" Quem ousará? Ou esta assim: "Dormir com uma mulher bonita, sim, claro, mas será que sabe o que é dormir com uma mulher feia?" No dia em que virmos anúncios deste género no France-Soir ou no Paris-Press poderemos dizer que literatura erótica ganhou o seu lugar ao sol.

BORIS VIAN POR BORIS VIAN

DIÁLOGOS NA CÂMARA - III

- Obama é um tolo, disse o presidente, um inexperiente. Então ele não sabe que um presidente nunca deve assumir uma responsabilidade desagradável.

O vereador espreitou para o jornal e viu a notícia que irritara o presidente. O presidente dos EUA tinha, ele próprio, assumido publicamente as responsabilidades pelas falhas dos serviços de segurança na detecção e prisão do cidadão que tentou fazer explodir um avião. O vereador calou-se e aguardou.

- Sabe, meu caro, vamos ter de instalar, com a máxima urgência, scanners corporais na Baixa. Nem que seja necessário fazer uma alteração orçamental, recorrer ao QREN... O que for preciso.

O vereador ficou espantado. Temeroso, arriscou: scanners corporais na Baixa, senhor presidente?

- Isso mesmo. Comigo a segurança está acima de tudo. Até pode ruir um prédio, mas isso é secundário ao pé da segurança na Baixa. Não vê como a Baixa está movimentada à noite e o comércio foi salvo graças às câmaras de videovigilância!?

- Mas, senhor presidente, onde é que quer colocar os tais scanners?

- Olhe nas entradas da Baixa. Em todas. Aliás, até devem ser colocadas algumas na Fernão de Magalhães.

- Na Fernão de Magalhães. Mas há alguma razão especial para colocar scanners corporais na Fernão de Magalhães - perguntou intrigado o vereador.

- Sabe, eu tenho cá umas desconfianças e não quero ser apanhado desprevenido. Tenho visto, à noite, umas senhoras por aqueles lados, a sorrir quem passa, de saia curta e eu desconfio de que elas escondem alguma coisa.
O vereador ficou mudo e levantou-se para sair.

- Ah, já agora - acrescentou o presidente -, era bom começar de imediato a vistoriar os carros das castanhas assadas. Aquilo faz muito fumo e nunca se sabe se não podem explodir e já viu se atingem, por exemplo, um Deputado que vai a passar e que tanto trabalho deu a eleger. Como é que um pai se sentiria.

O vereador retirou-se. Não sabia se devia tomar um chá ou um café.

Nota: Qualquer semelhança com a realidade é pura coincidência.

POESIA EM TEMPO DE GRIPE

Todos os homens são maricas quando estão com gripe

(pasodoble)

Pachos na testa
terço na mão                                                                          
uma botija
chá de limão
zaragatoas
vinho com mel
três aspirinas
creme na pele
grito de medo
chamo a mulher
ai Lurdes Lurdes
que vou morrer
mede-me a febre
olha-me a goela
cala os miúdos
fecha a janela
não quero canja
nem a salada
ai Lurdes Lurdes
não vales nada
se tu sonhasses
como me sinto
já vejo a morte
nunca te minto
já vejo o inferno
chamas diabos
anjos estranhos
cornos e rabos
vejo os demónios
nas suas danças
tigres sem listras
bodes de tranças
choros de coruja
risos de grilo
ai Lurdes Lurdes
que foi aquilo
não é chuva
no meu postigo
fica comigo
não é o vento
a cirandar
nem são as vozes
que vêm do mar
não é o pingo
de uma torneira
põe-me a santinha
à cabeceira
compõe-me a colcha
fala ao prior
pousa o Jesus
no cobertor
chama o doutor
ai Lurdes Lurdes
nem dás por nada
faz-me tisanas
e pão-de-ló
não te levantes
que fico só
aqui sozinho
a apodrecer
ai Lurdes Lurdes
que vou morrer.

António Lobo Antunes

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

A ARTE DA PRUDÊNCIA - 15

Rodear-se de inteligências auxiliares.

É uma grande sorte os poderosos poderem rodear-se de homens de grande entendimento que os livrem de todos os problemas causados pela ignorância e também batalhem por eles as lutas mais difíceis. É de uma rara grandeza servir-se dos sábios. Isto supera o costume bárbaro de Tigranes, que transformava em criados os reis vencidos. É muito melhor outro tipo de domínio: transformar, com arte, em nossos servidores aqueles a quem a natureza fez superiores em inteligência. Há muito que aprender e a vida é curta, e não se vivie se não se sabe. É, pois, uma rara habilidade aprender sem esforço, aprender muito de muitos, sabendo tanto como todos. Depois, numa reunião, fala por muitos, pois pela sua boca falam tantos quantos o prepararam, conseguindo assim, com suor alheio, fama de oráculo. As inteligências auxiliares escolhem primeiro a lição, e depois servem-lhe o saber abreviado. Mas aquele que não consiga obter a sabedoria através da servidão, que a alcance através da amizade.

A Arte da Prudência
  Baltasar Gracián  

AINDA A CO-INCINERAÇÃO

Um dia, decerto, será feita a história do "Processo de co-incineração na cimenteira de Souselas" e, com a devida documentação, se entenderá o papel dos diversos actores políticos e técnicos a sua coerência, o seu oportunismo e a sua incompetência.

Do muito que se poderá entretanto dizer é que o processo foi mais desprestigiante para a Cidade e para a Universidade do que tóxico para as populações.

Conhecida a decisão política do Governo houve dois momentos marcantes, que foram duas vitórias para Coimbra. O primeiro, a tomada de posição dos Deputados eleitos por Coimbra, na Assembleia da República, que sobrepuseram às directivas partidárias a defesa da Cidade. O segundo, a criação de uma Comissão Cientifica Independente que "travou" a decisão do Governo e colocou a questão na esfera do conhecimento cientifico, acima de todas as outras considerações.

A partir daqui sucederam-se episódios, voltas e reviravoltas, algumas bem tristes pelo oportunismo e pela incompetência demonstrada.

Os actores políticos, que fizeram maratonas frente às televisões, desde logo deram a entender que era a luta político-partidária que os motivava e alguns, que por isso até ganharam eleições, acabaram por confirmar, na prática, que não era o interesse das populações de Souselas que os preocupava.

Os actores científicos, que haviam certificado com o seu carimbo académico, que o processo de co-incineração, como estava e onde estava a ser preconizado, era insustentável, acabaram derrotados em toda a linha, levando a uma desqualificação gritante da competência da nossa Universidade.

Hoje a luta contra a co-incineração em Souselas é vista, a nível nacional, como um entretém duns "rapazes" de Coimbra sem crédito e sem mérito, um fait-divers sem importância, porque a cidade também não tem grande importância.

Mais do que os problemas com os resíduos industriais perigosos (RIP) Coimbra sofreu evidentes prejuízos e  acabou por ver expostas publicamente debilidades e incompetências para muitos insuspeitas e o que é triste é que segundo parece o espectáculo está para continuar. 

COIMBRA E O TEATRO

Na passada sexta-feira fui à Oficina Municipal de Teatro assistir à peça "D. Quixote (de Coimbra)". A sala estava esgotada e à semelhança do que ainda recentemente tinha acontecido no Teatro da Cerca de São Bernardo com "Sabina Freire", o público era maioritariamente jovem, interessado e percebia-se que estava ali com satisfação.

A convicção é de que em Coimbra - que sempre gostou de teatro - há um um novo público e senti-me particularmente feliz por ter pertencido a um Executivo Municipal que lançou a construção dos dois espaços que referi.

O que me parece, e talvez esteja errado, é que existe uma insuficiente expressão pública deste gosto e de que seria interessante dar-lhe uma maior visibilidade e de apostar em Coimbra como uma Cidade de Teatro.

Os equipamentos hoje existentes, o ambiente universitário, a vontade expressa de ver Coimbra assumir uma nova dimensão cultural - como ficou bem expresso no manifesto "Pelo Direito à Cultura e Pelo Dever de Cultura!" -, são elementos a considerar e por isso alguma coisa deveria ser feita, por todos nós, até por respeito e como reconhecimento para com todos aqueles que teimosamente fazem teatro em Coimbra.

Há um blogue "Amigos da Cultura" que poderia ser, para já, o suporte de algumas intervenções mais específicas nesta área, levando à realização de um fórum que congregasse todos os protagonistas teatrais da Cidade, que permitisse colher ideias e sugestões para dar uma maior visibilidade ao teatro em Coimbra.

domingo, 10 de janeiro de 2010

A ARTE DA PRUDÊNCIA - 14


A essência e a forma.

Não basta a substância, também é necessária a circunstância. Os maus modos tudo corrompem, até a justiça e a razão. Os bons modos tudo remedeiam: douram o não, suavizam a verdade e embelezam a própria velhice. Tem muita importância a maneira de fazermos as coisas. As maneiras simpáticas são o taful dos gostos. Na vida, o mais apreciado é um comportamento atencioso. Comportar-se e falar com bons modos resolve qualquer situação difícil.

A Arte da Prudência
Baltasar Gracián

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

UMA SEMANA INTERESSANTE

A semana que agora acaba foi, sem dúvida, uma semana politicamente interessante. A aprovação do Orçamento do Estado para 2010 começou o seu caminho, o Governo e os Sindicatos dos professores chegaram a acordo e a Assembleia da República aprovou o casamento de cidadãos do mesmo sexo.

Temos aqui, nestes três casos, elementos de análise e ponderação sobre a nossa realidade política e a sua especificidade. No caso da Orçamento de Estado desenha-se um entendimento do PS com o centro direita, no caso do acordo com os sindicatos dos professores releva-se o triunfo da maioria relativa do PS sobre a sua ex-maioria absoluta e na aprovação do casamento de cidadãos do mesmo sexo sublinha-se o entendimento com o PS dos partidos à sua esquerda.

Estamos assim perante a política pura, onde se prova que tudo é possível, ainda que nem tudo possa ser desejável.

Depois de tudo isto, quem é que terá coragem de vir, amanhã, pedir uma maioria absoluta? 

Há erros que se pagam bem caro e é bom que as lições sejam aprendidas até porque há quem ainda não tenha percebido até que ponto comprometeu ontem hipótese futuras do desenvolvimento de um projecto coerente  e sem os malabarismo inerentes a uma política de geometria variável.

Verdadeiramente o que é pena é que o PS não possa fazer o seu Orçamento, que o acordo na Educação não tenha sido mérito de uma maioria coerente e que não seja possível um consistente e duradouro entendimento à esquerda.
 
Bom fim de semana!

BALTASAR GRACIÁN

Fernando Pessoa escreveu: "Cultura não é ler muito, nem saber muito; é conhecer muito."

Partindo desta ideia e na tentativa de que este blogue tivesse algum conteúdo, ainda que despretensioso, que ajudasse ao conhecimento, tenho vindo a publicar uma sucessão de aforismos, ou de máximas, da autoria de Baltasar Gracián, um escritor espanhol nascido em 1601 e falecido em 1658.

Estes aforismos foram publicados pela primeira vez em 1647, num livro com o título original "Oráculo Manual e Arte de Prudência", sendo notória uma escrita de estética Barroca, onde alguma dificuldade de leitura nos obriga, frequentemente, a uma releitura para descobrir o pleno sentido dos textos.

A "Arte da Prudência"  mereceu a atenção e influenciou, entre outros, Rochefoucould, Madame de Sabel, La Bruyère e de forma especial Schopenhauer e Nietsche.

Para mim os aforismos de Gracián têm modernidade, são interessantes e motivo de reflexão, contribuindo para conhecer, pelo que vou continuando a sua publicação.

É este o prudente esclarecimento a todos aqueles que se têm interrogado sobre o interesse bloguista das máximas de Gracián.

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

BUROCRACIA - PATRIMÓNIO DA HUMANIDADE

A burocracia não é um exclusivo do nosso país. 

O problema não é só nosso. Há, por esse mundo fora, grandes manifestações de amor pela burocracia. Há diferentes modelos de burocracia, que têm a ver com a idiossincrasia do respectivo povo. Há, também, diferenças de grau burocrático e por isso até há rankings comparativos sobre burocracia.

Aliás, haveria um mar de depressões se a burocracia acabasse e se os seus excessos não permitissem atribuir culpas e desgraças. Mas a burocracia existe porque gostamos dela. Quanto não vale um carimbo num papel!? E a felicidade que se sente quando se resolve um problema burocrático. E a  alegria perversa de puder culpabilizar alguém por causa da burocracia. 

E a inércia burocrática é uma delicia. É como dormir uma sesta no pino do verão. 

Foi a inércia burocrática que levou a que um serviço público criado pelos Britânicos em 1803, que estabelecia a permanência de um homem nos Penhascos de Dover, com a obrigação de tocar um sino de alerta se detectasse a aproximação da marinha de guerra Francesa, enviada por Napoleão, só tivesse sido extinto em 1945...

Sobre a burocracia lembro-me sempre de duas interessantes afirmações. Uma do famoso Eugene "Gene" McCarthy", que disse: "A única coisa que nos salva da burocracia é a sua ineficácia". Outra do Almirante Hyman G. Rickover: "Se tiverem que pecar, pequem contra Deus, nunca contra a burocracia. Deus há-de perdoar-nos, a burocracia jamais."
 

Há por esse mundo fora tantas e tão variadas manifestações de amor pela burocracia que deveria ser considerada "Património da Humanidade".
 
Por que não fazer uma petição nesse sentido?

A ARTE DA PRUDÊNCIA - 13

Agir com intenção, com primeira e segunda intenções.

A vida do homem é milícia contra a malícia do homem: a sagacidade luta com estratagemas mal intencionados. Nunca faz aquilo que dá a entender: aponta, sim, para despistar; insinua-se com habilidade e dissimulação; e age na inesperada realidade, sempre pronta a confundir. Deixa cair uma intenção para tranquilizar a atenção alheia, e volta-se imediatamente contra ela, vencendo pelo imprevisto. Mas, à inteligência penetrante, previne-a com observações cuidadosas, espreita-a com cautelas, entende sempre o contrário do que quer que entenda, e descobre instantaneamente qualquer jogo duplo; deixa passar qualquer primeira intenção, sempre à espera da segunda e ainda da terceira. A simulação aumenta quando se descobre a artimanha, e nessa altura tenta enganar com a própria verdade; muda de jogo, para mudar de estratagema, e converte em engano a verdade sincera, baseando a sua astúcia numa enorme candura. Surge então a advertência e, ao entender a intenção do outro, expõe as trevas revestidas de luz; decifra a intenção, mais dissimulada quanto mais simples. Assim luta a astúcia de Pitón contra a candura dos penetrantes raios de Apolo.

A Arte da Prudência
Baltasar Gracián

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

A PREPARAÇÃO DO ORÇAMENTO

Vamos entrar no debate sobre o "Orçamento do Estado para 2010" e porque antes de aprovar um documento desta importância é necessário tomar em consideração o impacto real que terá nas pessoas, transcrevo a seguir, para reflexão, uma breve "confissão" de Peter Drucker.

"Não aceito a premissa de base na qual a economia como disciplina se fundamenta e sem a qual não pode ser sustentada. Não aceito que a esfera económica seja uma esfera independente, para não falar do facto de ser a esfera dominante. É, seguramente, uma esfera importante. Conforme Bertold Brecht disse, "primeiro a alimentação e depois a moralidade" - e encher a barriga é aquilo a que a economia se cinge, de um modo geral. Não só desejo mas também insisto para que, em todas as decisões política e sociais, os custos económicos sejam calculados e tomados em consideração. Considero uma irresponsabilidade e com tendência para o desastre o facto de se poder falar apenas de "vantagens". Acredito nos mercados livres, depois de já ter demasiado do que existe em termos de alternativas.


Na minha opinião a esfera económica é uma esfera em vez de a esfera. As considerações económicas são condicionalismos em vez de determinantes primordiais. As necessidades económicas e as satisfações económicas são importantes mas não absolutas. Acima de tudo, as actividades económicas, as instituições económicas, a racionalidade económica, são meios para se atingirem fins não-económicos (isto é, humanos e sociais) em vez de serem fins em si mesmos. Isto significa que não vejo a economia como uma "ciência" autónoma. Resumindo, não sou um economista - algo que aprendi desde que, em 1934, quando era um jovem economista num banco londrino, assistia aos seminários de John Mayard Keynes, em Cambridge. De repente apercebi-me que Keynes estava interessado no comportamento das mercadorias, enquanto eu estava interessado no comportamento das pessoas."