segunda-feira, 12 de julho de 2010

A GOLDEN SHARE DA BRITES DE ALMEIDA


Fiz a escola primária em Aljubarrota. Na altura, enquanto fazíamos apanhadas em loucas correrias pelas ruelas da vila, eu e os meus colegas, já tínhamos ouvido falar da Padeira mas não tínhamos nenhuma ideia do que seria uma golden share.

O inglês ainda não fazia parte do ensino primário e de economia não só não conhecíamos a palavra como tudo o que pretendíamos eram uns tostões para comprar uns rebuçados, lamentando não ter dinheiro para provar os afamados bolos de umas irmãs doceiras - irmãs muito avançadas para a época que andavam de bicicleta e usavam uns surpreendentes calções "inglesinhos" -, que vendiam em Alcobaça e também na sua casa, onde se tinha o privilégio de ver uma carcomida e ferrugenta pá de ferro, que era guardada num pequeno saco de serapilheira e apresentada como a pá da Padeira.

Da Padeira, a famosa Brites de Almeida, também pouco sabíamos. Desconhecíamos, como diz a lenda, que seria algarvia, corpulenta e feia e que teria seis dedos em cada mão. O que sabíamos era que no dia seguinte ao da batalha de 14 de Agosto de 1385, ali naquele lusitano lugar de Aljubarrota, ao preparar-se para acender o forno e fazer a cozedura do pão, se deparou com uns sete soldados castelhanos escondidos no forno e que por via das coisas resultou matá-los à pazada.

Sete homens de pernil esticado à frente do forno mortos por uma padeira é obra e por isso mais do que o Dom Nuno era a Padeira que preenchia o nosso imaginário. Aliás o clube da terra não se chama Don Nuno Álvares Pereira mas sim Brites de Almeida, o que diz tudo.

A maior dificuldade era perceber como é que sete homens, sete soldados, cabiam dentro dum forno de pão, mas não tínhamos dúvidas que eles tinham caído, um a um, às mãos, ou melhor dizendo à pá da nossa Brites de Almeida.

Hoje, mais velhos, bastante mais velhos, ainda que sem perceber nada de economia, pelo menos desta economia que tem como única declinação a crise, percebemos de repente que a Brites de Almeida mais não tinha feito de que utilizar, em 1385, uma golden share. A sua estratégica golden share, porque o que ela decerto pensou foi que aqueles castelhanos lhe pretendiam dar cabo do forno e que se os deixasse com vida nunca mais teria local para cozer o pão nem queimar um cavaco que fosse. 

São espantosas as lições que a história nos dá.

1 comentário:

  1. Caro João Silva
    Continuo a ler tudo (ou quase) o que publica, não sou lá grande comentador, só porque concordo em geral. Sou assim mais para o contraditório e quando comento num dos blogues que sigo é mais para "contrariar". O seu post de hoje é pura e simplesmente "expantoso" nele consegue fazer uma analogia com um grande realismo.Ou seja consegue meter vários coelhos na mesma cartola, desde a lenda da padeira à "lenda" da golden share.
    Abraço

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