sexta-feira, 10 de junho de 2011

A ARTE DA PRUDÊNCIA - 83

Permitir-se algum deslize venial.

Um descuido costuma ser às vezes a melhor recomendação das boas qualidade. A inveja tem o seu ostracismo, tanto mais civil que criminal: acusa o muito prerfeito por pecar em não pecar, e condena em absoluto quem é perfeito em tudo. Converte-se em Argos para procurar defeitos no muito bom, embora seja por consolo. A censura fere, como o raio, as mais nobres qualidade. Que dormite Homero de vez em quando e, para acalmar a malevolência (não vá rebentar de veneno), finja-se algum descuido na inteligência ou no talento, mas nunca na prudência. É como lançar a acapa ao touro da inveja para salvar a imoralidade.

A Arte da Prudência
Baltazar Gracián

quarta-feira, 1 de junho de 2011

AJUDEM-NOS A RESOLVER ESTE DILEMA


É difícil acreditar que a actual campanha eleitoral suscite qualquer reflexão sobre o nosso futuro colectivo e que permita uma racional escolha partidária.

O ruído, o vazio, os ódios e as acusações sobrepõem-se aos argumentos e a qualquer visão prospectiva. Aliás, um olhar sereno e tão descomprometido quanto possível, leva-nos a algumas espantosas ilações, que mais do que esclarecer fomentam dúvidas e interrogações.

Uma das questões marcantes é a do surgimento de uma nova perspectiva, já identificada noutros países, de antagonismo entre os defensores da justiça social e os apologistas do progresso. Quem defende a justiça social fá-lo hoje barricado na defesa das conquistas do passado e na rejeição de uma visão progressista e inovadora da sociedade, porque só adivinha derrotas e retrocessos.

Também, espantosamente, os conservadores de ontem aparecem hoje como os grandes partidários da modernização, numa interpretação de que este é o seu tempo e que o futuro é construindo obrigatoriamente por si, dado que a esquerda está esgotada e sem margem de manobra política.

Como alguns observadores vêm fazendo notar, parece que é verdadeira a ideia de que a defesa de uma visão de progresso passou gradualmente da esquerda para a direita, que fala em avançar, acelerar, adaptar-se, reformar, etc.

Aliás a esquerda não apresenta qualquer projecto de sociedade estruturado e exequível, sendo, ou uma esquerda radical que está fora do tempo e do espaço, ou uma esquerda que não tem mais do que um discurso antidireita. A esquerda parece o território do puro pessimismo que reflecte a incapacidade de parar a tal direita que assume descarada a vitória antes do tempo porque o programa vencedor, conhecido e validado antes das eleições, é o seu.

A esquerda de poder, no fundo, bate-se pela ideia de resistência e de moderação de um programa de direita à luz de um pragmatismo militante onde não há espaço para a utopia que decorria, no passado recente, da sua confiança no futuro e no progresso e sustentava uma visão optimista e reconfortante do nosso desenvolvimento.

A direita, por seu lado, onde não se percebem distinções programáticas, até passou a ser optimista e a aparecer com a convicção de que só ela é futuro, só ela é esperança, segurança e progresso.

Mais ainda, parece que a esquerda se apresenta sem visão e sem paixão, encurralada entre novas formas de participação cívica que lhe roubam protagonismo e protagonistas, e sem capacidade de garantir uma correcta governança perante a pressão de uma direita que usa a redutora visão do contribuinte em detrimento do cidadão.


Depois, globalmente, os políticos assumiram, num estranho haraquiri, o discurso de que na política não só vale tudo como é óbvia a sua subordinação a projectos de realização pessoal, destruindo a confiança e o necessário élan colectivo.

É pena a incapacidade da construção de um projecto de esquerda com as esquerdas. Os puros terão, porventura, o reino dos céus mas nunca vencerão neste reino terreno, e os outros, os pecadores, não são capazes de confessar os seus pecados, pelo que vamos tendo o que não merecemos mas o que construímos com anos de rancor e disputas herdadas de um século que já passou há tanto tempo.

E agora o que fazer? Deixar a direita ganhar para que a esquerda se possa reconstruir ou apostar na esquerda a fazer de direita para tentar minorar as maldades subscritas?

Temos uma semana para decidir. Por isso, ajudem-nos a resolver este dilema e digam-nos alguma coisa de verdadeiramente substancial e interessante sobre o futuro…

quinta-feira, 28 de abril de 2011

A ARTE DA PRUDÊNCIA - 82



Nunca exaurir nem o mal nem o bem.

Um sábio reduziu toda a sabedoria à moderação em tudo. Exaurir o direito é injustiça, e a laranja que muito se espreme, amarga. Até no prazer nunca se deve chegar aos extremos. O próprio talento se esgota se é axaurido e tirará sangue em vez de leite quem colher como se fosse um tirano.

A Arte da Prudência
Baltasar Grácian

quinta-feira, 21 de abril de 2011

CONTINUO A GOSTAR DE CRAVOS VERMELHOS, PÁ!


Sinto-me cercado de escritas temáticas e repetitivas e, por isso, tenho a sensação que tudo está diariamente dito.

A angústia da sabedoria tornou-se assim dolorosa. Todos sabem de tudo. Todos sabem tudo. Todos sabem tudo sobre o mesmo. Todos são categóricos. Todos têm certezas. Todos têm verdades absolutas.

Não me deixam uma ponta de dúvida com todas as contradições com que me confrontam.

Por tudo isto, porquê ter o cansaço de reflectir?

Os fóruns radiofónicos e televisivos são não só encontros de ódio de todos os puros e bons, como momentos de profunda sabedoria sobre a causa das coisas e sobretudo de soluções para todos os males. Sinto-me verdadeiramente esmagado.

Todos os que não queriam há algum tempo um governo de maioria política hoje querem uma maioria alargada. Todos os que desejavam a clarificação política hoje professam o desejo de um cocktail partidário. Todos os que não salvaram as velhinhas de serem atropeladas na passadeira hoje sabem como salvar o país, a Europa e o mundo.

Reconheço-me exausto com tantos números, medidas, políticas e, sobretudo, com tantos salvadores.

Não sei o que faça ou o que possa fazer no meu quotidiano apagado de cidadão comum que vê surgirem sábios a cada esquina. Aliás, a minha dificuldade está em descobrir os outros homens comuns com quem me cruzo e que ainda conseguem sonhar ou ir trabalhar.

Não pude escolher o tempo nem o local onde nasci e agora nem posso escolher o meu futuro. Está tudo decidido. Pedem-me, tão só, que daqui a dias vá confirmar as escolhas. Escolhas que não são as minhas mas que afirmam eu ter de validar para continuar a existir como cidadão.

Reconheço que cheguei ao tempo dos sábios, de todos os sábios, que num momento particular se congregaram neste canto da Península Ibérica e que me tenho de deixar ir pela sua mão… Negam-me alternativas.

Até acabaram com as distinções semânticas e uma hierarquia de valores republicanos.

Devo estar doente. Continuo a gostar muito de cravos vermelhos, pá!

sexta-feira, 18 de março de 2011

A ACADÉMICA NÃO TEM CULPA


No momento certo, quer como autarca quer como cidadão, expressei publicamente a minha indignação pela nomeação do Presidente da Académica como Director Municipal da responsabilidade do então presidente da Câmara de Coimbra – Dr. Carlos Encarnação.

Argumentei com os riscos que tal promiscuidade suscitava e contestei política e eticamente tal decisão perante uma indiferença quase total, arrostando por isso com o mau-olhado político de muitos dos meus camaradas de partido que nunca me perdoaram o atrevimento.

Fui ameaçado com um processo judicial e ostracizado entre outras coisas também por esta, porque era necessário um silêncio conveniente que se sobrepusesse a valores e princípios éticos e porque no jogo político-partidário era preciso não “perder” o apoio dos adeptos.

Nunca acusei o presidente da Académica de qualquer crime, acusei, isso sim e com vigor, o presidente da Câmara pela decisão política da nomeação e apontei-lhe as responsabilidades que cabem a alguém que sendo o principal responsável da Câmara sempre se escondeu perante graves denúncias indiciadoras de problemas na área urbanística, por força da situação que ele criara na procura de um mero ganho político pessoal.

Hoje, perante uma decisão judicial condenatória do presidente da Académica, independentemente de futuros desenvolvimentos que o processo venha a ter, quem apareceu publicamente acusado acabou por ser a Académica e isto não é justo.

O verdadeiro e principal culpado é o Dr. Carlos Encarnação que teve o cuidado de ter fugido a tempo, gozando de um esquecimento imperdoável. Aliás, não deixa de ser interessante lembrar que uns dos actos finais do seu consulado se traduziu na tentativa de uma defesa antecipada das “condenações” que lhe caberão.

Com a legitimidade da razão que me assiste nesta questão, entendo dever afirmar que o verdadeiro condenado é o Dr. Carlos Encarnação e que se alguém não tem culpa de nada é a Académica.

Ainda que nunca tenha invocado essa condição a verdade é que sou de há muito sócio da Académica e me repugna ver o seu nome enxovalhado em consequência de golpes dados em nome da grande política e tolerados em nome da pequena política.

Por Coimbra ficará o silêncio dos culpados, que deviam pedir desculpa à cidade e à Académica pelo imenso mal que lhes causaram, particularmente o Dr. Carlos Encarnação, de quem ninguém se parece lembrar e cujo afastamento originou um geral respirar de alívio.

Também aqueles ingénuos e úteis defensores da promiscua decisão que levou a esta triste situação deviam ter agora a coragem de, pelo menos, virem dizer publicamente que, no meio de tudo isto, quem não tem culpa é a Académica.

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

ETERNO RETORNO


Por vezes apetece ficar farto de eleições. E isto porque se é democrata. É que parte das eleições não passam de meros rituais.

Que motivação se pode encontrar se o vencedor já está encontrado, o discurso não tem contraditório e depois de aplaudido nunca mais se encontra na prática?

Há momentos em que até a intriga criadora e a conspiração bondosa se esfumam perante a inevitabilidade e este é um deles. Para mais, quando mais fazem falta ideias, pior é. É que por detrás da porta está o poder, esse maldito veneno que inibe corajosos e espicaça oportunistas.

É verdade que se voto logo existo mas a existência pode ser precária, cheia de dores e de solidão se não é o voto certo - explicitamente demonstrado -, se não é o voto no vencedor. Pior ainda, se não se vota bem e se apregoam ideias.

É dura a democracia. Para resultar melhor deviam ser sempre as minorias a ganhar. E resultava. Há alguns que estão sempre com a maioria mesmo que esta mude e zaguezaguei e por isso mereciam perder sempre. O pior eram os ressentidos que podiam acabar por ganhar e um vencedor ressentido é um perigo.

Não me julguem mal. Não aqui nenhum agastamento democrático mas tão só a tentativa de compreender o que era isso do "Eterno retorno" de que, por exemplo, falava Nietzsche.

domingo, 6 de fevereiro de 2011

BOMBEIROS A PATACO


O Dr. Rui Rio veio, na qualidade de presidente da Junta Metropolitana do Porto, propor que se “pegasse nos muitos bombeiros voluntários e se criasse um batalhão à escala metropolitana”, conseguindo, assim, “maior eficácia e menores custos”.

Não sei se esta inopinada proposta tem fundamento nalgum estudo concreto, que permita concluir qual o aumento da eficácia e quais as economias conseguidas com aquela solução ou, se pelo contrário, se tratou de um mero palpite, o que a acontecer parece não se coadunar com a imagem de grande rigor e competência com que se apresenta.

A questão merece, contudo, reflexão, não na mera perspectiva da estruturação da protecção civil e do papel dos bombeiros na área Metropolitana do Porto mas num contexto mais alargado, porque a questão tem de ser equacionada a nível nacional uma vez que a ser adoptada no referido território tenderia, inevitavelmente, a estender-se a todo o país.

Ao apresentar a sua proposta o Dr. Rui Rio adivinhou logo a dificuldade da solução, só que a sustentou em “resistências a diversos níveis”, argumentário fácil e frágil, tanto mais que há boas e legitimas resistências de defesa do interesse dos cidadãos, do interesse colectivo e do interesse do país.

Maior eficácia e menores custos com os bombeiros, são duas ideias sustentadas numa visão tecnocrática e economicista da missão dos bombeiros voluntários e das Associações Humanitárias em que se inserem, esquecendo a história dessas associações, o seu papel social, cultural e a visão humanista que levou à sua criação. Mais, revela um profundo desconhecimento dos mecanismos de recrutamento voluntário e de tudo aquilo que subjaz de enquadramento grupal e de integração social que as corporações de bombeiros voluntários permitem.

Os bombeiros voluntários têm sido a espinha dorsal da protecção civil no país, no país real e profundo, em que os cidadãos ainda se juntam não para discutir a partilha de prebendas mas para aprender a combater um fogo, a acudir a uma vitima de acidente, ou a salvar um concidadão e a proteger os seus bens.

Há uma ideia e um espírito de missão em acção, em movimento, todos os dias por esse país fora, que serão inevitavelmente colocados em crise com uma macro organização como a preconizada pelo Dr. Rui Rio. Aliás, a primeira e inevitável consequência seria a de uma profissionalização dos bombeiros com encargos acrescidos, contrariando a tese poupadinha do Dr. Rui Rio.

Está, por isso, profundamente errado o Dr. Rui Rio. No dia em que houver uma estrutura formal, obrigatória, com enquadramento de natureza institucional, seja de âmbito municipal, regional ou nacional o que o Dr. Rui Rio terá são bombeiros profissionais, à semelhança, aliás, dos bombeiros que já tem no Batalhão de Bombeiros Sapadores que integra a Câmara, a quem terá de pagar de acordo com uma carreira profissional, aumentando exponencialmente os custos em recursos humanos.

2011 foi declarado pelo Conselho de Ministros da União Europeia “Ano Europeu das Actividades Voluntárias que Promovam uma Cidadania Activa” pelo que talvez seja um bom momento para reflectir se pretendemos continuar a ter no nosso país o privilégio da existência de organizações de cidadãos voluntários, como são as associações humanitárias de bombeiros, muitas delas centenárias, que emergindo da sociedade civil são um património de valores e uma solução concreta para muito dos problemas de socorro e segurança dos cidadãos, ou se pretendemos sacrificá-las à luz duma imponderada visão tecnocrática e economicista, sem sustentação técnica ou económica fundamentada.

Num tempo de egoísmos e de exacerbada competição o que o Dr. Rui Rio nos propõe é que abdiquemos do esforço voluntário e solidário de milhares de homens e mulheres, organizados em torno das suas associações, para passarmos a ter pretensos bombeiros voluntários a pataco.

Nota: Artigo publicado na edição de 6.2.2011,  do Jornal de Notícias.