quarta-feira, 7 de abril de 2010

A ARTE DA PRUDÊNCIA - 44

Simpatia para com os grandes homens.

Uma das qualidades do herói é concordar com os heróis. Esta simpatia é um prodígio da natureza quer pelo oculto quer pelo vantajoso. Existe um parentesco de corações e de carácter. Os seus efeitos são os que a ignorância popular atribui à magia. Esta simpatia não se fica só pela estima, mas atrai a benevolência e chega a ser afecto: persuade sem palavras e consegue sem méritos. Há uma simpatia activa e outra passiva; as duas, quanto mais sublimes, mais êxito têm. É uma grande habilidade saber conhecê-las, distingui-las e obtê-las, pois não há esforços suficientes sem este favor secreto.

A Arte da Prudência
Baltasar Gracián

terça-feira, 6 de abril de 2010

É PRECISO DIZER NÃO A ISTO!

 Se a gestão faz um apelo permanente à racionalidade temos de nos perguntar até onde vai essa racionalidade no que toca aos vencimentos e prémios aos gestores de empresas, algumas públicas ou participadas por capitais públicos e que funcionam praticamente em regime de monopólio.

A questão não só ultrapassa tudo o que é aceitável como também não é circunstancial. Só notámos agora porque há crise, mas há em tudo isto uma questão de fundo que se arrasta e que justifica e exige uma abordagem política global e em profundidade. 

Essa análise implica, contudo, para que venha a ter vencimento uma solução equilibrada, a ausência de demagogia e de uma primária reacção de inveja (tão típica no nosso país) e, ainda, o contributo do repúdio social pelo excesso e pela desproporção.

Pese embora os gestores trabalharem num contexto complexo e exigente - em que também dispõem de condições especiais de exercício -, não é possível compreender seja a que luz for as loucuras que temos vindo a conhecer e de que a mais recente é a do vencimento e prémios auferidos pelo presidente executivo da EDP, relativamente ao exercício de 2009. 

Aquilo não é possível! E não é, sobretudo, possível que volte a acontecer no futuro.

Numa sociedade que felizmente se mobiliza para realizações nobres na área social e que faz operações de limpeza de norte a sul do país, não é possível deixar de aparecer um movimento de contestação consciente e fundamentado a estes escândalos num dos países da Europa  com maior desigualdade económica e social, e em que se percebe que o que está em causa é a valorização absoluta do capital, com desprezo pelo trabalho e pelos próprios serviços prestados aos consumidores - a generalidade dos cidadãos.

É precisa uma democrática exigência de mudança. É preciso dizer não a isto!

DOMESTICAÇÃO POLÍTICA

Não conheço o nome técnico, se é que o há, mas é sabido que uma das formas usadas para dominar, por exemplo, um gato é de o agarrar pela parte posterior do pescoço, pelo cachaço.

Normalmente o bicho fica calmo, porque era assim que  a sua progenitora  o transportava quando era bebé.

Por vezes esta técnica também é usada na política. Agarrar o jovem líder pelo "cachaço" amolece-o, evita os "arranhões" nos seniores e é possível arrastá-lo para onde se quer.

Veremos se no Congresso do PSD que aí vem já não se notarão sintomas do uso desta técnica no seu novo líder.

É que o súbito aparecimento de um documento sobre política energética, em cujos signatários pontificam "homens de Belém", tem um pouco o ar de ser uma primeira tentativa de agarrar o neófito pelo "cachaço" e de lhe estabelecer uma determinada agenda política.

segunda-feira, 5 de abril de 2010

OPERAÇÃO NAUTILUS


PP e MFL encontraram-se numa pastelaria das avenidas novas e escolheram uma mesa situada estrategicamente - num recanto, o menos visível possível. 

Evitando olhar para o empregado pediram um garoto e um galão, respectivamente, e uma torrada para dividirem. Diga-se, em abono da verdade, que o empregado também evitou olhar para PP, porque este se tinha transformado num verdadeiro mito urbano - havia quem dissesse que ele sugava o sangue dos adversários políticos, particularmente dos companheiros do seu próprio partido.

MFL começou por manifestar o seu desconforto por aquele encontro. Já não liderava nada e a conversa podia muito bem ter sido telefónica. Mas PP  contrapôs, com vastos e escatológicos argumentos, que havia um património de luta pela verdade que não podia ser alienado e que pelo conhecimento que tinha sobre escutas não era seguro que a conversa telefónica não pudesse vir a ser gravada. 

Acrescentou, ainda, PP que, mesmo ali, deveriam ter cuidado e por isso propôs que adoptassem um nome de código  para enquadrar aquele encontro: "Operação Nautilus". Como MFL devia saber, acrescentou PP, Nautilus era o nome atribuído a um submarino, por Júlio Verne na sua obra "Vinte Mil Léguas Submarinas", que foi publicada em 1870 e que...

Nesta altura MFL interrompeu, inquieta, e pediu a PP que dissesse afinal o que pretendia com essa tal "Operação Nautilus". PP começou então a desenvolver um longa e elaborada teoria em que defendia a necessidade do partido avançar com uma Comissão de Inquérito sobre os submarinos, porque ele estava certo e seguro - aqui não havia ponta de dúvida - que o primeiro-ministro sabia do contrato e que por isso ele tinha de ser chamado à Assembleia para confirmar esse conhecimento. Mais, que conhecia a cor dos submarinos; que não se opunha às grandes obras públicas,  que teriam de ser pagas pelas futuras gerações, como era o caso; e que tinha autorizado que os submarinos tivessem um periscópio que permitia espiar tudo, até a comunicação social...

MFL, esboçando um sorriso - atitude pouco vulgar - concordou plenamente. Não havia dúvidas desta vez Sócrates não tinha por onde fugir. Iria ser confrontado com a verdade e não podia fugir. Aliás, lembrou mesmo que se fosse necessário pedir-se-ia ao Paulo que emprestasse alguns dos milhares de documentos que fotocopiou quando foi ministro e onde constava tudo sobre a política de defesa.

Foi um momento de uma enorme e sintonizada felicidade. Ali estava a conciliação de duas práticas políticas consequentes - a de MFL pela verdade e contra o endividamento externo e a de PP que vivia para atacar Sócrates por terra, mar e ar.

Tratava-se agora, tão só, de estabelecer uma estratégia adequada que levasse o novo líder do seu partido a assumir a respectiva proposta de inquérito. Para PP a primeira iniciativa seria a de enviar-lhe o livro de Júlio Verne, porque temia que ele não conhecesse nem a obra, nem o autor, nada...

Neste momento, um dos clientes da pastelaria ao reconhecer aquelas duas ilustre figuras políticas, dirigiu-se-lhes, cumprimentou-os, pediu desculpa por interromper e pediu que lhe confirmassem se era verdade o que se dizia sobre a compra dos submarinos dado que tinha sido feita por um governo do  partido a que eles pertenciam.

PP, sério como sempre, respondeu de imediato que não tinham ali elementos que permitissem responder e que poderia encontrar resposta na obra de Mikhail Aleksandrovitch Bakunin, cuja leitura recomendava vivamente.

MFL e PP levantaram-se e preparam-se para sair, não sem que antes tivessem comprado, para disfarçar, uma bola de Berlim e um barquinho de chocolate. 

Despediram-se, por entre um piscar de olho conivente, com PP a prometer que iria escrever um artigo contundente e definitivo sobre o assunto e MFL  a anunciar que  iria  dar uma volta até Belém para espairecer e ver a entrada da barra.

Estava iniciada a "Operação Nautilus".

Nota: Como é compreensível - razões de confidencialidade - os nomes dos intervenientes está abreviado, mas vão ver que a operação está em curso.


"O melhor deste país são os "Alexandre Herculanos" que andam por aí. Não estão na política. Hoje nem sequer os querem como conselheiros do rei."

Eduardo Lourenço
(5 de Abril de 2010, em entrevista ao Público)

sexta-feira, 2 de abril de 2010

ARTE DA PRUDÊNCIA - 43


Sentir com a minoria e falar com a maioria.

Querer remar contra a corrente torna impossível descobrir os enganos e é perigoso. Apenas Sócrates podia fazê-lo. Discordar é considerado uma ofensa, porque é condenar a opinião alheia; os descontentes multiplicam-se tanto por quem foi criticado como por quem aplaudiu. A verdade é de poucos, mas a falsidade é tão comum como vulgar. Não se pode conhecer o sábio por falar em público, uma vez que aí não fala com a sua voz, mas com a da necedade geral, por mais que a desminta no seu íntimo. O prudente evita tanto que o contradigam como contradizer: rápido na censura, é lento em manifestá-la. O sentir é livre; não se pode nem deve violentar; retira-se no refúgio do silêncio e se às vezes se expressa é para amparo de poucos e cordatos.

A Arte da Prudência
Baltasar Gracián

 

GOVERNAÇÃO




É uma pena que todas as pessoas que sabem governar o país estejam demasiado ocupadas a conduzir táxis e a cortar cabelos.

George Burns