Há
muito que o ouvia mas agora, no caseiro distanciamento social,
comecei a dar-lhe uma atenção diferente e a escutá-lo.

É
verdade que já teve por aqui melhores dias, quando o espaço público
em cujas árvores se empoleira foi ajardinado. Agora que está cheio
de ervas, que são cortadas uma ou duas vezes ao ano e em que o
sistema de rega automática desapareceu literalmente, porque nunca
foi ligado, ele não consegue encontrar as guloseimas de que se
alimenta.
No
entanto por aqui vai continuando e nestes dias de humana reclusão e
de reduzida circulação automóvel o seu canto é ainda mais
melodioso. É a alegria de mais natureza e menos confusão e
poluição.
Não
sou ornitólogo, mas tenho vindo a ficar com a sensação que canta
mais alto uma área que transcende a sua arte de sedução e que me
quer fazer sentir que há muitas e belas flores silvestres que
merecem a minha atenção, eu que passo a vinda a lamentar que a
minha cidade não tenha mais flores nos seus jardins, rotundas e
separadores centrais, porque acredito que seria uma cidade mais bela
e com gente mais feliz.
Há
dias lembrei-me de lhe dar um nome. Corro o risco de aparecer por ai
outro melro e acabar por não os distinguir, mas essa é mesmo o
encanto da natureza, porque eles não se mascaram para fugir daquilo
que são.
Pois
bem, decidi, sem lhe dizer nada, que o seu nome seria: Amanhã. É
que Amanhã dá para todos os dias que aí hão-de vir, seja com
vírus ou sem vírus, esteja cá ou não para o ouvir, e porque
acredito que amanhã também os meus filhos e os meus netos o vão
escutar.
Claro
que espero que o melro, o Amanhã, não se descaia um dia a
dizer-lhes que a sua cidade poderia ter sido a Cidade da Saúde, mas,
que por razões mesquinhas e tacanhas visões partidárias, alienou
essa possibilidade que hoje lhe daria uma importância e dimensão
diferentes, assim como espero que não lhes diga o quanto tem sido
dramático para o Serviço Nacional de Saúde uns caçadores de
tesouros que durante anos andaram a encher a boca com o seu nome mas
que na prática o foram debilitando por amor ao dinheiro.
Mas
o meu melro, ladino como é, também já me deu a entender que agora
que todos andam a dizer que a partir desta pandemia nada será como
dantes, estão é desejosos que rapidamente tudo volte a ser como
dantes O que anseiam é retomar os tão caricatos confrontos
político-partidários na Câmara e a disputa de uns momentos de fama
mediática.
Desconfio,
tenho mesmo a certeza, que o Amanhã há dias, num dos seus gorjeios,
me deu a entender que mesmo depois de tudo o que nos aconteceu, a
nossa Coimbra, não vai ver emergir os novos protagonistas políticos
capazes de nos fazerem sonhar e de nos brindar com um novo ciclo de
políticas autárquicas, para construir o amanhã.
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