quinta-feira, 4 de junho de 2015

O PECADO DA OMISSÃO



Num tempo de tanta fala apetece acompanhar Talleyrand na afirmação de que: “A palavra foi dada ao homem para disfarçar o próprio pensamento.” Com efeito ouvem-se permanentemente coisas extraordinárias a respeito de tudo, particularmente no contexto das disputas partidárias que antecedem as eleições, que não se pode deixar de desconfiar de que muito do que se diz pretende disfarçar o que se pensa.
 
Mas, mais interessante ainda é, neste mesmo momento de intenso falatório, estar atento ao que não se diz, porque é ai que se escreve parte da história do futuro. Na verdade os atores políticos revelam muito do seu mérito na habilidade com que omitem as suas intenções deixando nos seus programas eleitorais buracos programáticos dignos de um verdadeiro queijo suíço, camuflados, normalmente, por longas e gongóricas divagações político/filosóficas.

Diga-se, contudo, que por vezes há surpresas como aquela com que o primeiro-ministro recentemente nos brindou, quando afirmou que no programa eleitoral que irá subscrever não constará qualquer proposta relativa à segurança social. Ora esta omissão deliberada e declarada, numa das matérias mais importantes num programa de governo para o próximo mandato, por parte de uma aliança partidária que é governo e que pretende continuar a sê-lo, não pode deixar de ter uma leitura condenatória dado que ninguém acredita que não haja por ali ideias sobre a matéria.

O que esta decisão obviamente revela é o medo de um elevado custo eleitoral por parte de alguém que um dia se vestiu de estadista e que garantiu em voz alta que se estava marimbando para eleições. A pouco e pouco e agora decididamente, o estadista acidental eclipsou-se.

Mas a omissão não se circunscreve a um único pecador. É, como sempre foi, uma parte significativa do jogo político em que também os eleitores entram cada vez mais, abstendo-se de participar na vida cívica e nos atos eleitorais, com a agravante de que acabam por ser eles os mais penalizados. Aliás para alguns políticos a omissão dos eleitores é a sua sorte grande porque só por essa razão acabam por existir.

Sendo a omissão um pecado, em termos religiosos, é também um ato profundamente censurável em termos políticos que dá origem, regra geral, a muito do penar quotidiano com que nos confrontamos.

Dizia o Padre António Vieira da Companhia de Jesus e Pregador de S. Majestade, num dos seus sermões que a: “Omissão é um pecado que se faz não fazendo.” 

Ora assim sendo será melhor não pecarmos fazendo qualquer coisa, nomeadamente penalizando os omissos que tantas vezes nos estragam os sonhos e nos envenenam a esperança. 

(Artigo publicado na edição de 4 de junho de 2015, do Diário de Coimbra)

quinta-feira, 21 de maio de 2015

MILAGRES



Há uma elaboração filosófica sobre milagres na qual não vou envolver, nem tão pouco em questões de índole religiosa, se bem que me lembre frequentemente de Juliano, de Gore Vidal e pense como eram felizes os Gregos, que hoje se vêm gregos com os problemas da desumanidade do todo-poderoso deus-dinheiro, quando os seus deuses tinham os mesmos defeitos dos humanos. Mas, adiante.

Agora que não é possível viver sem tropeçar permanentemente em milagres, lá isso não é. Não daqueles milagres que a Igreja analisa e valida, mas dos outros que se tornaram companheiros diários e que se manifestam nas mais diversas áreas. Por exemplo: o golo do Belenenses ao Porto, no passado domingo, foi um verdadeiro milagre para os benfiquistas, assim como a manutenção da Académica também foi um milagre. 

Bem pode o José Viterbo argumentar com horas de estudo, ponderação, treinos, opções táticas, trabalho psicológico, escolha de jogadores, etc. que para os adeptos o que aconteceu foi um milagre. Mais ainda, numa análise mais fina, foi um milagre em que está envolvido o seu bigode e que agora lhe exigem como troféu. Aliás, estou convencido que o humilde e generoso José Viterbo terá exclamado: “Graças a Deus!”, quando viu a manutenção assegurada, o que significa crédito ao divino e milagre consumado.

Frequentemente fazemos promessas na expectativa de conseguirmos a realização de milagres, ainda que haja milagres impossíveis e como tal promessas desnecessárias. É o caso de um governo maioritário formado pelos partidos de esquerda. Esse, que seria um grande milagre é um milagre impossível e por isso não merece a pena fazer promessas, por mais heroicas que sejam.

De igual modo, apesar das maldades e das diabruras que vão fazendo um ao outro, também seria um milagre que os partidos de direita no governo não se entendessem e coligassem de forma irrevogável. Também neste caso não há nada a fazer, há por aqui uma forte cola de contacto que resiste a qualquer milagre.

Mas estas exceções só confirmam a regra - a cultura do milagre faz parte da nossa idiossincrasia. Não acreditamos na organização e no planeamento gostamos de resolver as questões de forma milagreira. Dizia Einstein que: “Há duas formas de viver a vida: Uma é acreditar que não existe milagre. A outra é acreditar que todas as coisas são um milagre.” Nós somos adeptos da segunda, respeitando, obviamente, o provérbio: “ A gente conta o milagre mas não diz o nome do santo.”

Já viram o milagre que é de, apesar da imagem tão pouco positiva da atividade política, assistirmos ao aparecimento de tantos novos partidos e de tantos candidatos presidenciais?!

(Artigo publicado na edição de 21 de maio de 2015, do Diário de Coimbra)

quinta-feira, 7 de maio de 2015

LEALDADE



Não há campanha eleitoral sem promessas irrevogáveis, propostas mais ou menos detalhadas, projetos salvíficos e declarações entusiásticas. Por isso vamos ter um menu completo com todos estes ingredientes, para além daqueles desagradáveis que vão aparecer, fruto da propensão para o disparate e para a asneira que nestas ocasiões irrompe com particular evidência, muitas vezes de onde menos se espera. 

A novidade que seria importante introduzir no discurso e na afirmação política é um valor frequentemente desprezado e raramente enunciado: a lealdade. Lealdade para com o país, para com os cidadãos, para com os eleitores e para com as instituições. Aliás, a deslealdade em política é uma prática tão comezinha que só o uso da palavra lealdade provoca pele de galinha em muito boa gente.

Num tempo de tão rápidas transformações, de tanta imprevisibilidade e de tantas condicionantes os eleitores, sem deixarem de esperar promessas e palavras de esperança querem, sobretudo, respeito e lealdade. Sabem que não há ciência exata para o futuro e que também não há leitura nas estrelas, nas cartas ou nos búzios, que garanta a resolução dos problemas extremamente complexos que se enfrentam. Não é possível, nos tempos que correm, estar cego perante a imensidão das limitações, por isso não merece a pena apostar na mentira que faz virar as costas a uma participação cívica de valor acrescentado, neste que é o grande momento democrático em que o voto de um qualquer Silva é tão importante como o de um Coelho, ou de um Espirito Santo. 

Hoje a política está em reconstrução, já não vive de visões messiânicas ou encarna um heroísmo grandiloquente, é muito mais um campo de frustração e de deceções, que para não entrar em crise absoluta exige, pelo menos, alguns valores essenciais e o mais linear, mais simples e mais valioso é obter garantia de que os atores políticos se comprometem a ser leais para com os seus concidadãos.

A maioria dos eleitores, mais do que o país por si sonhado, procuram o país possível e por isso ao exercerem o seu direito de voto merecem dos eleitos a lealdade da sua ação política, o que significa: verdade, honestidade e transparência nos seus atos e nas suas palavras. A lealdade é, sem dúvida, uma das grandes inimigas da hipocrisia, da demagogia e do farisaísmo que são a imagem recorrente dos políticos e o garante do descrédito da política.

“Afirmo solenemente, por minha honra, que cumprirei com lealdade as funções que me são confiadas” não pode ser uma ladainha de fecho de cerimónia mas o começo de uma relação de confiança, que implica esclarecimento das condicionantes e consequências das decisões que nos comprometem com o futuro. 

O truque da biografia desleal para dar conta de deslealdes é não só um acabado exemplo de hipocrisia mas também uma demonstração de que não há por ali evidência de lealdade futura para com quem quer que seja.

(Artigo publicado na edição de 7 de maio de 2015, do Diário de Coimbra)

quinta-feira, 23 de abril de 2015

ERA UMA VEZ



Para os homens e mulheres da minha geração é inevitável falar nesta altura do 25 de Abril de 74. Os acontecimentos a que assistimos e os momentos que vivemos foram de tal maneira intensos, importantes e únicos que ficaram para sempre a latejar na nossa memória e a marcar as nossas vidas. 

A questão é que não imaginávamos que esse dia se iria tornar uma simples recordação. Pensávamos que ele nunca mais acabava e que seria um dia de muitos anos, sem noites, nem negrumes. Ingenuamente, acreditámos que os cravos não morriam e confiámos que o tempo estava a nosso favor. Cheios de ilusões tínhamos a certeza de que o essencial estava assegurado e que não havia cinismo capaz de dar cabo da esperança que nos invadira.

Grandes esperanças e grandes expectativas eram companheiras diárias até que, pouco a pouco, fomos percebendo que havia quem se divertia com a nossa ingenuidade e utopia. Não sabíamos bem o que se estava a passar mas pressentíamos um inimigo silencioso que nos ia desgastando e encaminhando para uma viela tortuosa e sombria fazendo-nos acreditar que aquele era o caminho que nos levaria à grande avenida dos jacarandás floridos e, sobretudo, o único caminho possível.

E, um dia, descobrimos que nos tinham feito andar em círculo e que por pouco não estávamos a voltar ao sítio de partida. Souberam convencer que éramos ricos de pobreza, que trabalhávamos pouco e mal e que a redenção estava no trabalho precário e mal pago. Criaram uma farta bolsa de desempregados para o recrutamento fácil e sem direitos. E, até assistimos, no meio de tudo isto, ao aplauso de tantos que não perceberam que eram eles o verdadeiro alvo desta sociedade do futuro sem futuro. 

Com a inteligência perversa e a conivência prostituta de alguns, foram inculpando a política por todos os males enquanto engordavam as suas contas na Suiça ou em offshores exóticos. E até criaram uns políticos obedientes e venerandos, uns verdadeiros placebos do sistema, cuja realização pessoal se resume à “honra” de uma fotografia nos jornais ou a umas imagens na televisão. 

Hoje estamos mais desiguais do que já fomos, mais pobres do que já fomos, menos independentes do que já fomos e menos solidários do que já fomos. Ganhámos em insegurança e perdemos em esperança, tendo assistido à renúncia, quase generalizada, do heroísmo ideológico que nos alimentou e nos dava a convicção de que era possível um país melhor e uma sociedade mais justa.

Chegados aqui percebemos que os anos e a erosão de valores, da ética, do sentido de serviço público, nos colocaram frequentemente no sofá a fazer zapping para saber o preço do crude ou o movimento no Dow Jones, no Nasdak, no CAC, no Nikkei, no Dax, etc., porque é aí que está o real jogo do futuro. 

Sobre Abril, já se diz: Era uma vez… 

(Artigo publicado na edição de 23 de abril de 2015, do Diário de Coimbra)

CERTEZAS EM TEMPO DE DÚVIDAS



Será verdade e por quê?

É recorrente a afirmação de que Coimbra perdeu, nas últimas décadas, influência no contexto nacional. Sendo esta uma convicção que foi fazendo o seu caminho e que está adquirida, muito particularmente pelas suas próprias elites, não haverá que duvidar.

Na verdade Coimbra tem hoje uma menor visibilidade e uma menor representação nas estruturas políticas a nível nacional, bem como uma menor notoriedade nos media nacionais. Há como que um apagamento do papel que, ainda não há muito, representava para o país na produção de ideias, de cultura e de formação de elites políticas.

Para isto não será estranho o facto de ter deixado de ser a Cidade Universitária do país, para passar a ser mais uma das cidades com universidade. Talvez, com a instauração do regime democrático, nenhuma outra cidade tenha visto o seu estatuto tão abalado como Coimbra. O fim da quase exclusividade daquele que era o seu pilar fundamental de afirmação e à volta de que tudo girou durante séculos, foi posto em crise e, consequentemente, gerou uma angustiante sensação de perda, que até ao momento não foi totalmente ultrapassada.

Mais, com a emergência da democracia representativa e por força da debilidade demográfica do círculo eleitoral que encabeça, acabou por se situar no meio da tabela em número de deputados o que lhe reduziu significativamente a importância política e a capacidade de reivindicação.

E, porque não há duas sem três, viu, no mesmo momento, a ambição do poder e o poder do dinheiro concentraram-se na capital e, consequentemente, atrair muitos daqueles que poderiam ser mais-valias para o seu futuro.

Em conclusão, confrontada com novas realidades, mudanças profundas e aceleradas, que geram sempre mal-estar, e porque estava acomodada a um certo protecionismo e ao “chapéu” de algumas figuras tutelares, acabou por não encontrar a força nem o saber necessários para se recolocar num plano equivalente àquele de que até então gozava.

E agora?

Não sei se há um manual de auto-ajuda para cidades, mas há formas evidentes de diminuição da auto-estima coletiva, que têm, por aqui, sido cultivadas com esmero. Uma das mais recorrentes é da realização de debates, tertúlias, conferências, etc. sobre a cidade em que se produzem ideias utópicas ou realistas, pouco importa, mas que acabam por nunca ter consequências. Fazem-se Planos Estratégicos que ninguém conhece e que, contrariamente ao seu objetivo, acabam por não ter qualquer consequência prática. Fazem-se campanhas eleitorais, com programas, de que toda a gente se esqueceu no dia seguinte. 

Depois, e em complemento, não se conhece uma visão para o Município, apresentada por uma liderança mobilizadora e que possa ser assumida coletivamente. Mais ainda, a cidade tem um formato que leva a uma partilha de poderes que não permite identificar claramente um líder. Soma-se a existência de um conjunto de potenciais contribuintes para o enriquecimento cultural e cívico da cidade, que até vive nela e também dela, mas que a entendem pequena e irrelevante demais para o seu estatuto e ambições e como tal dispensam-se de lhe dar o seu contributo.

Tudo isto contribui para a dificuldade de aparecimento de uma política de esperança coletiva. Reina uma lógica de curto prazo e uma liturgia do efémero que não permite a emergência daquilo a que alguém chamou “política da posteridade”, para mais quando o que faz mover as pessoas são sobretudo as energias negativas, como a indignação e a vitimização.

Coimbra, tem pois, uma má relação com o futuro e vive com dificuldades o seu presente, sendo por isso, um desafio arrojado prescrever qualquer receita tendente a inverter a assumida situação de redução de influência. Aliás, tenho a certeza absoluta de que qualquer sugestão será sempre encarada com um sorriso condescendente ou uma risada sarcástica.

Contudo, para mim, tenho uma convicção: só será possível reverter a situação através de políticas, concretamente políticas públicas, que assentem em dois pilares: CULTURA e CIÊNCIA. Não tenho dúvidas de que é por aqui que passa qualquer estratégia de desenvolvimento do Município e de afirmação regional e nacional de Coimbra.

Mas, já agora, e porque são muitas vezes as pequenas coisas que suscitam os grandes sentimentos e transformam vidas e cidades, por que não distribuir no dia 4 de julho, Dia da Cidade, uma pequena bandeira da cidade, e em contraponto àquela desculpa paradigmática que Goethe nos legou, através de Torquato Tasso e que diz: “do que cada um é/ são os outros que têm a culpa”, com a seguinte frase inscrita: “Coimbra vai ser melhor por minha culpa.” 

(Artigo publicado na edição de aniversário do Campeão das Províncias)