quarta-feira, 31 de março de 2010

A ARTE DA PRUDÊNCIA - 42



A capacidade natural de liderança.

É uma fonte secreta de superioridade. Não deve ter origem num enfadonho artifício, mas numa natureza imperiosa. Todos se rendem sem saber como, ao reconhecer o vigor secreto da autoridade inata. Estes homens (temperamentos majestosos, reis por mérito próprio e leões por privilégio inato) tomam o coração e a mente dos outros como prova de respeito. Se têm outras boas qualidades, nasceram para ser os primeiros agentes políticos, pois conseguem mais com um gesto que outros com uma prodigalidade.

A Arte da Prudência
Baltasar Gracián

terça-feira, 30 de março de 2010

DIÁLOGOS NA CÂMARA - XIV

O vice-presidente estava nervoso, não sabia onde colocar as mãos e o sorriso amarelo era indisfarçável. Por seu lado o presidente mostrava descontracção e até um certo ar de inexplicável felicidade.

- Então, meu caro, o que me diz dos resultados - perguntou o presidente.

- Ora, senhor presidente, não era aquilo desejávamos era o que temíamos e por isso não posso deixar de dizer que não me sinto lá muito satisfeito - respondeu o vice-presidente.

- Não me diga isso. Então não era isto que esperávamos e que desejávamos!? Onde é que foi buscar essa ideia? Sempre disse que ia ser este o resultado e por mim estou muito satisfeito. Ele até nasceu em Coimbra. Aliás, aconselho-o vivamente a expressar a maior alegria pelo resultado obtido pelo nosso novo líder - atalhou convicto o presidente.

- Mas... senhor presidente, nós apoiámos publicamente outro candidato, não sei se recorda!? - referiu confuso o vice-presidente.

- Olhe, meu caro, veja o que me acabou de dizer. Se reparar, falou no passado. Isso é uma questão ultrapassada e esquecida. Na verdade o nosso apoio ao novo líder é inequívoco e entusiástico. Neste momento temos tão só de começar desde já a organizar devidamente as coisas - acrescentou o presidente.

- Organizar as coisas... Mas a que coisas se refere, senhor presidente - interrogou um confuso vice-presidente.

- Bem, por exemplo, temos de escolher a música que devemos usar nas nossas recepções. É importante adoptar música clássica, concretamente árias de ópera e acabar com isso do fado de Coimbra, pois como sabe ele faz exercícios de canto e de certo não é canto gregoriano. Mais, temos de pensar nas nossas gravatas e sobretudo no nó. E eu que gosto tanto deste nó largo..., mas enfim o mais importante é o poderzinho. Vá por mim, meu caro - disse com tom decidido o presidente.

- Olhe, senhor presidente, eu decididamente não tenho a sua capacidade de encaixe - disse amargurado o vice-presidente.

- Pois é, é por isso que é só vice-presidente, mas olhe que como já lhe disse tem de treinar para assumir isto. Anime-se, homem. Vá lá, ombros para cima, encha o peito de ar e repita comigo: Fizemos uma excelente escolha. Foi sempre a nossa verdadeira opção. Temos um grande líder! - exclamou o presidente e acrescentou - Não se esqueça, a partir de amanhã gravatinha lisa e tons azulados. Vai ver que até lhe fica bem. Quanto ao nó, vamos esperar mais algum tempo para ver...

O vice-presidente sentia-se, ele sim, um pouco azulado e com um nó na garganta.

CRESCIMENTO E DESENVOLVIMENTO


Diferença entre crescimento e desenvolvimento:

AS LIXEIRAS CRESCEM MAS NÃO SE DESENVOLVEM

segunda-feira, 29 de março de 2010

O PEDRO, O PASSOS E O COELHO



1. O Pedro

O Pedro é um jovem, que nunca foi bem jovem, com pouco mais de quarenta anos. Cultiva uma imagem de galã, com fatos de bom corte e gravatas monocolor, porque está convencido de que este é o vestuário recomendado para primeiro-ministro. Como hobby faz gargarejos, não tanto na procura da perfeição no belo canto, mas para aprimorar a técnica da entoação na oratória e assim arrebatar as massas com liberais discursos políticos.  O Pedro nunca acreditou que existisse um qualquer "Pulo do Lobo" e sempre esteve convencido de esta era um referência a um tema de reportagem do National Geographic.

2. O Passos

O Passos é um jovem, que nunca foi bem jovem, com pouco mais de quarenta anos. Social-democrata de cartão e liberal de coração, ameaçou um dia o rigoroso Cavaco a quem agora, neste tempo de "paixão", conseguiu derrotar, acrescentando-lhe mais uma "estação" na via-sacra presidencial. Cultor do vazio, o Passos, não gosta de conviver com quem não sabe comer bolo-rei e admite que só aceitará tomar chá com pastéis de Belém se estes tiverem muita canela.

3. O Coelho

O Coelho é um jovem, que nunca foi bem jovem, com pouco mais de quarenta anos. Tendo mostrado vontade de correr começou a ser treinado e apoiado por um sabedor angelo, que sendo filósofo nos tempos livres e tendo sido acidental gestor de polícias é um activo cultor de negócios.  Contudo, a corrida do Coelho é tecnicamente muito criticada pelo grande especialista  Pacheco Pereira que, em tempos, escreveu que ele tem "uma biografia do nada".

Nota final. O Pedro, o Passos e o Coelho são um ser uno, que vai assumir o papel de principal rosto da oposição e sobre o qual pairam dúvidas e expectativas muito especialmente em Cascais, no Estoril e em Sintra, sítios muito cosmopolitas onde os grandes chefes fazem elaboradas ementas e cozinham requintados pratos.

VALORES E CORRUPÇÃO

Dado que o debate sobre a corrupção continua na agenda política e mediática e porque hoje é começo de semana, apenas uns breves parágrafos, para reflexão, retirados do livro "Resistir", de Ernesto Sabato:

"Outro valor perdido é o da vergonha. Notaram que as pessoas já não têm vergonha e que, então, acontece que entre pessoas de bem se pode encontrar, de sorriso aberto, qualquer sujeito acusado das piores corrupções, como se nada fosse? Noutro tempo, a sua família ter-se-ia enclausurado, mas agora é tudo o mesmo e alguns programas de televisão solicitam-no e tratam-nos como a um senhor.

Na perspectiva do homem moderno, as pessoas de antigamente tinham menos liberdade. As possibilidades de escolha eram menores, mas a responsabilidade era, sem dúvida muito maior. Nem sequer lhes ocorria que pudessem descartar-se dos deveres a seu cargo, da fidelidade ao lugar que a vida parecia ter-lhes outorgado.

Era notável o valor que as pessoas davam às palavras. Nunca eram armas para justificar factos. Hoje todas as interpretações são válidas e as palavras servem mais para nos descartarmos dos nossos actos do que para responder por eles.

...

Quando a quantidade de culturas relativiza os valores e a "globalização" as esmaga com o seu poder arrogante, o ser humano, no seu desconcerto, perde o sentido dos valores e de si próprio e já não sabe em quem ou em quê acreditar."

ARMAZÉM DAS ARTES - ALCOBAÇA


Estes dias da Páscoa, meteorologicamente incertos, propiciam, não raramente, boas surpresas quando se vai por aí, sem destino certo, aproveitando uns dias de descanso.

Por mim deixo uma sugestão sem pinga de imaginação: vão até a Alcobaça. É uma cidade simpática, com uma boa gastronomia e em cujo Mosteiro, que todos já conhecem, merece a pena beber o silêncio e refrescar os olhos. 

Dos túmulos de Pedro e Inês já terá sido tudo dito mas talvez mereça a pena pensar quem seriam os canteiros que deixaram as suas iniciais gravadas nas pedras que talharam e assentaram com sabedoria.

Mas, se foram a a Alcobaça, seguindo este meu "sábio" conselho, guardem uns minutos para visitar o Armazém das Artes, um espaço cultural que fica logo ali à frente do Mosteiro e onde podem ver arte contemporânea - pintura e escultura, em que sobressai o escultor José Aurélio - e, complementarmente, uma exposição de instrumentos de precisão que, tenho de confessar, é  inesperada e extraordinária.

Acreditem que há verdadeira magia em todos aqueles parafusos e rodas dentadas e uma perfeição estética que deslumbra. 

E neste momento também ali estão expostos gramofones, rádios, etc.,  equipamentos de cuja existência nem se desconfia mas que nos orgulham  tal como as pedras que o canteiro assinou e que sustentam aquela grandiosa nave que acolhe um símbolo maior do amor humano.

Os contactos do Armazém das Artes - Fundação Cultural são os seguintes: geral@armazemdasartes.pt - www.armazemdasartes.pt

Nota: Não acreditem no que eu digo, vão mesmo ver para terem a certeza.

sábado, 27 de março de 2010

A ARTE DA PRUDÊNCIA - 41


Nunca exagerar.

É importante para a prudência não falar com superlativos, para não faltar à verdade e para não ofuscar a cordura. Os exageros são abusos na estima e indícios de escassez de conhecimento e gosto. O elogio desperta vivamente a curiosidade, excita o desejo. Depois, se o valor não corresponde ao preço, como sucede com frequência, a expectativa volta-se contra o engano e desforra-se com o desprezo do elogiado e daquele que elogiou. Por isso o prudente anda devagar e prefere pecar por defeito a por excesso. O excelente é raro: é necessário moderar a estima. Exagerar é uma parte da mentira. Por isso perde-se a reputação de bom gosto e, o que é mais grave, a de ser erudito.
A Arte da Prudência
Baltasar Gracián