segunda-feira, 10 de maio de 2010

A ARTE DA PRUDÊNCIA - 51


Saber escolher.

Viver é saber escolher. É necessário bom gosto e um discernimento rectíssimo, uma vez que não são suficientes o estudo e a inteligência. Não há perfeição onde não houver escolha. Ela tem duas vantagens: poder escolher e eleger o melhor. Muitos, de inteligência rica e subtil, de discernimento rigoroso, estudiosos e de cultura amena perdem-se quando têm de eleger. Casam-se sempre com o pior, de tal maneira que parecem equivocar-se por ostentação. Por isso, este é um dos maiores dons do céu.

A Arte da Prudência
Baltasar Gracián

quinta-feira, 6 de maio de 2010

O GRANDE COOPERANTE E O CANDIDATO NAÏF


Cedo se percebeu que a dita "cooperação estratégica" não passava de um envenenado presente político do Presidente Cavaco Silva ao Governo e, particularmente, ao Primeiro-ministro.

No fundo, o que estava e tem estado em causa, é uma mistificação, "vendida" pelo discurso presidencial, que deixa transparecer que, graças à "cooperação estratégica", os únicos actos "bons" do governo são aqueles que acontecem por influência do Presidente.
 
O que a prática tem vindo a demonstrar é que há um projecto presidencial de governação que se traduz num arremedo de co-gestão governamental, que transcende o magistério de influência e incorpora o magistério executivo na componente presidencial.

Os mais cépticos da sublinhada postura presidencial sempre desconfiaram que havia alguma coisa para além de uma  bondosa sessão de trabalho às quintas-feiras em Belém, entre o Presidente e o Primeiro-ministro e, passado algum tempo, começaram a perceber que nos restantes seis dias da semana havia uma irradiação programática que partia de Belém e se envolvia em influências e decisões que consubstanciavam uma verdadeira cooperação estratégica com personalidades e partidos da oposição, em divergência com as opções políticas governativas.

Se há, e sempre houve, uma tendência dos inquilinos de Belém para influenciarem as políticas governamentais, no caso presente houve uma designação especifica - num assumido marketing político - que tentou, mais do que clarificar posições, esconder propósitos.

Hoje, tudo isto é por demais evidente e, porque as eleições presidenciais estão aí, será bom olhar com clareza para as afirmações e para os propósitos dos candidatos não deixando de escrutinar devidamente as nuances semânticas dos discursos com que tentam esconder os seus reais propósitos.

O candidato Cavaco Silva, pese tudo o que irá dizer, já demonstrou que não é um "leal conselheiro" mas sim o "grande cooperante" que assume a intervenção presidencial em nome de um projecto político de cariz executivo, com componentes especificas de governação, com uma leitura própria da Constituição e uma procura de interferência directa e dirigista  nas políticas sufragadas em eleições legislativas. 

É, por isso, preciso, no contexto de dificuldade que vivemos e no começo de um século que se aguardava luminoso e se tem revelado desastroso, escolher uma alternativa ao cinismo, mascarado de pragmatismo, do "grande cooperante" e à impreparação evidente de um respeitável candidato naïf, que aparece quase como uma encomenda, e essa escolha só pode ser a de Manuel Alegre.

É imperioso que o PS perceba isto e se decida rapidamente porque há uma angustia desgastante que politicamente não lhe traz qualquer benefício tanto mais quando esta é a opção certa e possível.

A ARTE DA PRUDÊNCIA - 50


 Nunca perder o respeito por si próprio.

É melhor que nem se quer se familiarize a sós consigo mesmo. A sua própria integridade deve ser a norma de rectidão. É melhor que deva mais à severidade da sua opinião que a todas as normas externas. Que deixe de cometer indecências mais por temor da sua própria cordura que pelo rigor da autoridade alheia. Se chegar a tremer-se não necessitará do aio imaginário de Séneca*.

* A sua própria consciência

A Arte da Prudência
Baltasar Gracián

quarta-feira, 5 de maio de 2010

TGV LISBOA-MADRID. CONSTRUAM-ME, PORRA!


O século XIX trouxe-nos o comboio. E, desconhecendo estudos de custo/benefício é inaugurado em 1 Abril de 1868 o serviço directo de Lisboa a Madrid. Alguns anos mais tarde, em 1887, foi criado o Sud-Express que passou a ligar Lisboa-Madrid-Paris e Calais, com serviço diário, desde em 1906.

Muitas e interessantes histórias haverá para contar sobre esta ligação ferroviária à Europa, muito particularmente sobre a sua importância económica, social e cultural para o nosso país, mas nenhuma história se comparará em enredo, ao que tem sido a discussão sobre a oportunidade do necessário salto qualitativo na ligação ferroviária à mesma Europa, que se arrasta desde finais do século passado, e que tem a ver com a construção de uns cento e tal quilómetros de uma linha para comboios de alta velocidade.

Hoje, quando a França tem cerca de 1.200 quilómetros de TGV e a Espanha constrói aceleradamente uma extensa rede ligando as suas principais cidades, nós centrámos a discussão, como não poderia deixar de ser, na construção desses cento e tal quilómetros como se daí dependesse, ao fim de mais de oito séculos, a nossa salvação ou a nossa ruína.

A irracionalidade da discussão abateu-se sobre o país e a o TGV tornou-se um instrumento de luta partidária e de campanha eleitoral presidencial.

Gastámos rios de dinheiro em estudos, os governos aprovaram e até se comprometeram internacionalmente com a construção de cinco linhas em H e com duas em T. Agora só resta uma, da fronteira até ao Poceirão (nome simpático para pronúncia internacional e grande centro estratégico).


Dirigentes políticos da oposição, sapientes ex-ministros das Finanças e reputados economistas vão ao Presidente da República profetizar o fim do país com a construção de uns cerca de cem quilómetros de linha de comboio necessários à nossa ligação à rede europeia de alta velocidade.


O Presidente da República dá uma lição de macro-economia (?) na visita a uma fábrica de enchidos, para acirrar os ânimos anti-TGV, mesmo depois de ter aprovado o decreto-lei que permite a adjudicação, numa coerência de candidato presidencial em cooperação estratégica com a oposição de direita.


Por mim, ainda gostava de ir a Madrid no TGV, visitar o Prado, nem que tenha de entrar na estação do Poceirão, recordando que por uma vez a esquerda esteve unida na decisão de avançar com este projecto e que essa mesma união se estendeu ao apoio a um candidato presidencial - Manuel Alegre.


Entretanto, e à semelhança do que alguém um dia escreveu no Alqueva, sugiro um simples outdoor, à entrada de Lisboa, com a frase: "TGV Lisboa-Madrid. Construam-me, porra!". 

segunda-feira, 3 de maio de 2010

O GALO CELESTIAL


A notícia de que o Presidente da República vai receber nove ex-ministros das Finanças tem um óbvio significado político de pressão sobre o governo e as suas opções, para mais sabendo quem são esses ex-ministros e as teses que vêm defendendo no que se refere ao investimento público.

Há aqui, contudo, um problema de autoridade que não pode deixar de ser considerado: é que o ex-dez ministros das Finanças (o Presidente da República também foi ministro das Finanças) terão todos um quota-parte na situação em que nos encontramos.

Esta reunião que vai ser tema para muitas análises nos próximos dias fez-me lembrar um ser imaginário assim descrito por Jorge Luís Borges:

"O Galo Celestial

Segundo os Chineses, o Galo Celestial é uma ave de plumagem dourada, que canta três vezes ao dia. A primeira, quando o Sol toma o seu banho matinal nos confins do oceano; a segunda, quando o Sol está no zénite; a última, quando se esconde no poente. O primeiro canto sacode os céus e desperta a humanidade. O Calo Celestial é um antepassado do Yang, princípio masculino do uinerso. Está dotado de três patas e faz ninho na árvore fu-sang, cuja altura se mede por centenas de milhas e cresce na região da aurora. A voz do Galo Celestial é muito forte e o seu porte é majestoso. Põe ovos de que saem pintainhos com cristas vermelhas que respondem ao seu canto todas as manhãs. Todos os galos da terra descedem do Galo Celestial, que também se chama a "Ave da Alva".

sábado, 1 de maio de 2010

POLÍTICA



Política

Que simpático rato!
Não tem nada de repelente ou tétrico ou nojento.
E - para dizer tudo -
Há homens menos inofensivos.

Raul de Carvalho

A ARTE DA PRUDÊNCIA - 49



Ser um homem interessante e observador.

Ele manda nos objectos e não os objectos nele. Sonda o carácter mais profundo; sabe traçar com perfeição a anatomia do talento. Entende e valoriza a essência de qualquer pessoa apenas por vê-la. É, pelos seus raros dotes de observação, um grande decifrador da mais oculta interioridade. Observa com rigor, pensa com subtileza, infere com discernimento. Tudo descobre, adverte, atinge e compreende.

A Arte da Prudência
Baltasar Gracián